domingo, 1 de fevereiro de 2009

Descensão


"Imagine que houvesse um rei que amasse uma moça humilde", principia uma história de Kierkegaard.
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"Não havia rei como ele. Todos os estadistas tremiam diante de seu poder. Ninguém ousava pronunciar uma palavra contra ele, pois ele possuía a força para esmagar todos os oponentes. E, ainda assim, esse poderoso rei derreteu-se de amores por uma moça humilde.
Como podia declarar seu amor por ela? Por ironia, sua própria realeza deixava-o de mãos amarradas. Caso trouxesse-a ao palácio e coroasse-lhe a cabeça com jóias e vestisse-lhe o corpo com vestes reais, certamente ela não resistiria — ninguém ousava resistir-lhe. Mas ela o amaria?
É claro que diria que o amava, mas amá-lo-ia de verdade? Ou iria viver com ele temerosa, secretamente se lastimando pela vida que havia deixado para trás? Seria feliz ao seu lado? Como ele poderia saber?
Caso ele fosse na carruagem real até a cabana dela na floresta, com uma escolta armada balançando imponentes estandartes, isso também a atordoaria. Ele não desejava uma súdita servil. Desejava uma amante, uma igual. Desejava que ela esquecesse que ele era rei e ela uma moça humilde e que deixasse que o amor partilhado vencesse o abismo existente entre eles".

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"Pois é somente no amor que o desigual pode ser feito igual", concluiu Kierkegaard. O rei, convencido de que não poderia fazer a moça melhorar sua condição social sem reprimir sua liberdade, decidiu rebaixar-se. Vestiu-se de pedinte e aproximou-se da cabana incógnito, com uma capa surrada, frouxa, esvoaçando ao seu redor. Não era um mero disfarce, mas uma nova identidade que assumiu. Renunciou ao trono para ganhar a mão dela.
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O que Kierkegaard expressou em forma de parábola, o apóstolo Paulo expressou nestas palavras acerca de Jesus, o Cristo:
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Cristo Jesus, ... subsistindo em forma de Deus,
não julgou como usurpação o ser igual a Deus;
antes a si mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de servo,
tornando-se em semelhança de homens;
e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou,
tornando-se obediente até à morte, e morte de cruz.
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Em seu trato com seres humanos, Deus havia freqüentemente se humilhado. Leio o Antigo Testamento como um único e longo registro de suas "condescendências" ("descer, rebaixar-se, para estar com"). Deus condescendeu para falar de diversas formas a Abraão e a Moisés e à nação de Israel e aos profetas. Mas nenhuma condescendência pôde se igualar ao que veio em seguida, depois dos quatrocentos anos de silêncio. Deus, tal como o rei na parábola de Kierkegaard, assumiu uma nova forma: tornou-se um homem. Foi a descensão mais chocante que se pode imaginar.
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Extraído do livro "Decepcionado com Deus"
Philip Yancey

2 comentários:

james disse...

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Graça e paz vos sejam multiplicadas, irmão Junior.

Este é o verdadeiro Amor de Deus, por com nós, pecadores, assumiu uma nova forma: tornou-se um homem....

E, o homem, em sua insignificante sabedoria, tenta usurpar de Deus, tenta se igualar a Deus, e nesta frenética e absurda vontade humana, ainda há os que, idolatram estes insignes humanóides...

Fraternalmente.

James, presbítero.
Jesus, o maior Amor
...
..
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Leonardo disse...

Excelente texto e reflexão, meu irmão

Fica na paz

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