sábado, 23 de janeiro de 2010

Um Jó contemporâneo


Em tempos angustiosos onde nossos púlpitos evangélicos só se propagam vitórias e triunfalismos baratos, deixo para meus leitores uma saga de um sofredor extraída do livro "Decepcionado com Deus" de autoria de Philip Yancey, que certamente nos fará enxergar a vida de um forma bem diferente.

"Enquanto trabalhava neste livro, tomei o cuidado de me encontrar freqüentemente com pessoas que se sentiram traídas por Deus. Enquanto eu escrevia, desejava ter constantemente diante de mim rostos de verdade, de pessoas decepcionadas e em dúvida. Quando chegou a hora de escrever sobre o Livro de Jó, decidi entrevistar uma das pessoas cuja vida mais faz lembrar a de Jó, um homem a quem chamarei de Douglas.

Para mim Douglas parece "justo" no mesmo sentido de Jó: naturalmente não é perfeito, mas é um modelo de fidelidade. Depois de anos de estudo teórico e prático em psicoterapia, abriu mão de uma lucrativa carreira para poder iniciar um ministério urbano. Os problemas de Douglas tiveram início alguns anos atrás quando sua esposa descobriu um tumor no seio. Médicos operaram-na e removeram aquele seio, mas dois anos depois o câncer tinha-se espalhado para os pulmões. Douglas assumiu muitas tarefas domésticas e maternais à medida que sua esposa lutava contra os efeitos debilitantes da quimioterapia. Algumas vezes ela não conseguia segurar comida alguma no estômago. Perdeu o cabelo. E sempre se sentia cansada e vulnerável ao medo e à depressão.

Certa noite, no meio dessa crise, quando Douglas estava descendo uma rua da cidade, ao volante do carro e tendo junto a esposa e a filha de doze anos de idade, um motorista bêbado, em sentido contrário, veio ziguezagueando pela rua e bateu frontalmente neles. A esposa de Douglas ficou bastante chocada, mas não se feriu. A filha teve um braço quebrado e cortes profundos no rosto por causa do vidro do pára-brisa. O próprio Douglas experimentou o pior, recebeu uma fortíssima pancada na cabeça.

Depois do acidente, Douglas nunca sabia quando podia ter um ataque de dor de cabeça. Ele não conseguia trabalhar um dia todo, e às vezes ficava desorientado e esquecido. Pior ainda, o acidente afetou permanentemente sua visão. Um dos olhos se movia sem controle, recusando-se a focalizar. Passou a ter visão duplicada e mal podia descer um lance de escadas sem ajuda. Douglas aprendeu a conviver com todas as suas limitações à exceção de uma: ele não conseguia ler mais do que uma ou duas páginas de cada vez. A vida inteira ele tinha amado os livros. Agora estava preso aos livros gravados, produzidos para cegos.

Quando telefonei para o Douglas para solicitar uma entrevista, ele sugeriu que nos encontrássemos para um café da manhã; e, quando o dia marcado chegou, eu me preparei para uma manhã difícil. Até então eu tinha entrevistado uma dúzia de pessoas e tinha ouvido todo o tipo de desilusão com Deus. Se alguém tinha o direito de estar irado com Deus seria Douglas. Exatamente naquela semana sua esposa havia recebido um relatório desanimador do hospital: uma outra mancha surgira em seu pulmão.

Enquanto serviam-nos a comida, nós nos familiarizamos um com o outro, contando detalhes de nossas vidas. Douglas comia com grande concentração e cuidado. Óculos espessos corrigiam parte dos seus problemas de visão, mas era necessário muito esforço em focalizar apenas para poder levar o garfo à boca. Eu me forcei a olhar diretamente para ele enquanto conversávamos, tentando ignorar a distração do seu olho rebelde. Finalmente, quando terminamos a refeição e fizemos sinal à garçonete para pedir mais café, descrevi meu livro sobre decepção com Deus.

— O que você teria a dizer sobre a sua própria frustração ou desilusão? — perguntei. — O que você aprendeu que possa ajudar outra pessoa que esteja atravessando um período difícil?
Douglas esteve em silêncio pelo que pareceu um longo tempo. Cofiou sua barba grisalha e seu olhar se perdeu na distância. Por um instante fiquei imaginando se ele estava tendo um "branco" mental. Finalmente disse:
— Para dizer a verdade, Philip, não senti qualquer desilusão com Deus.

Fiquei surpreso. Douglas, de forma marcantemente honesta, sempre havia rejeitado fórmulas fáceis, como os testemunhos do tipo "Conte a bênção" que aparecem em programas religiosos na televisão. Esperei que explicasse.

— A razão é a seguinte. Aprendi, primeiramente com a enfermidade da minha esposa e então especialmente com o acidente, a não confundir Deus com a vida. Não sou nenhum herói. Fico tão perturbado com o que me aconteceu como qualquer outra pessoa ficaria. Eu me sinto livre para amaldiçoar a injustiça da vida e para dar vazão a toda minha tristeza e ira. Mas creio que Deus sente a mesma coisa quanto àquele acidente — entristecido e irado. Não o culpo pelo que aconteceu. Douglas prosseguiu:
— Aprendi a ver além da realidade física deste mundo. Vejo claramente a realidade espiritual. Nossa tendência é pensarmos: "A vida deve ser justa porque Deus é justo." Mas Deus não é a vida. E, se eu confundo Deus com a realidade física da vida — ao esperar, por exemplo, constante boa saúde — então me coloco na posição de ter uma decepção enorme. A existência de Deus, até mesmo seu amor por mim, não depende de minha boa saúde. Com toda franqueza, tive mais tempo e oportunidade para desenvolver meu relacionamento com Deus durante esse tempo de limitações físicas do que antes.

Havia uma profunda ironia naquela cena. Por meses eu estivera absorto com os fracassos na fé, tendo saído em busca de histórias de pessoas desapontadas com Deus. Eu havia escolhido Douglas como o meu Jó contemporâneo, e havia esperado dele uma amargurada explosão de protesto. A última coisa que eu esperava era um curso superior de aperfeiçoamento na fé.

— Se desenvolvermos um relacionamento com Deus independente das circunstâncias de nossa vida — disse Douglas —, então poderemos ser capazes de ficar firmes quando a realidade física se desmoronar. Podemos aprender a confiar em Deus apesar de toda a injustiça da vida. Não é essa a lição principal de Jó?

Embora a separação rigorosa que Douglas fazia entre a "realidade física" e a "realidade espiritual" me incomodasse, achei intrigante essa sua idéia. Durante os momentos que se seguiram trabalhamos juntos percorrendo a Bíblia, testando suas idéias. No deserto do Sinai as garantias divinas de sucesso físico — saúde, prosperidade e vitórias militares — nada fizeram para ajudar o desempenho espiritual dos israelitas. E a maioria dos heróis do Antigo Testamento (Abraão, José, Davi, Elias, Jeremias, Daniel) passaram por tribulações muito parecidas com as de Jó. Para cada um deles, eventualmente a realidade física com certeza parecia apresentar Deus como o inimigo. Mas cada um conseguiu apegar-se a uma confiança nele apesar das dificuldades. Com isso sua fé deixou de ser uma "fé contratual" — seguirei a Deus se ele me tratar bem — para ser um relacionamento que podia transcender qualquer dificuldade.

De repente Douglas deu uma olhada no relógio e percebeu que já estava atrasado para um outro encontro. Apressadamente vestiu o casaco e se pôs em pé para sair, e então se inclinou e disse um último pensamento:
— Desafio você a ir para sua casa e ler de novo a história de Jesus. A vida foi "justa" com ele? Para mim, a cruz acabou definitivamente com a crença enraizada de que a vida será justa.

Quando cheguei a casa, segui o conselho de Douglas e mais uma vez percorri os Evangelhos, imaginando como Jesus teria respondido à pergunta: "A vida é injusta?" Em lugar algum o encontrei negando a injustiça. Quando Jesus encontrava uma pessoa enferma, jamais fazia uma palestra do tipo "aceite a vida como ela é"; ele curava quem quer que o procurasse. E suas palavras incisivas quanto aos ricos e poderosos de sua época mostram claramente o que pensava das desigualdades sociais. O Filho de Deus reagiu à injustiça da vida de modo bem parecido como qualquer outra pessoa. Quando encontrava uma pessoa sofrendo, ficava profundamente tocado. Quando seu amigo Lázaro morreu, ele chorou. Quando o próprio Jesus se defrontou com o sofrimento, retraiu-se, três vezes perguntando se havia alguma outra saída.
Deus respondeu à pergunta sobre a injustiça não com palavras, mas com uma visita, uma Encarnação. E Jesus oferece uma prova de carne e osso de como Deus se sente quanto à injustiça, pois ele vestiu a "matéria" da vida, a realidade física no que tem de mais injusto. (Ocorreu-me, enquanto lia os Evangelhos, que, se todos nós da Igreja gastássemos nossas vidas tal como ele fez — ministrando aos doentes, alimentando os famintos, resistindo aos poderes do mal, consolando aqueles enlutados e levando as Boas Notícias de amor e perdão — então talvez a pergunta "Deus é injusto?" não fosse feita hoje em dia com tanta urgência.)"

2 comentários:

Joao Cruzue disse...

,

Oi Juninho,


Deus lhe abençoe o Blog.

Vamos em frente.

Junior disse...

Paz joão,

Continuemos na labuta cristã. Os dias são maus, mas esperançosos.

Abraços

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