sábado, 13 de dezembro de 2008

O Evangelho da Graça x O evangelho da simonia


Passava das 23h30 quando entrei naquele táxi forrado de adesivos com mensagens bíblicas. Após orientar a respeito do meu destino, perguntei: “Onde o irmão congrega?” Feitos os esclarecimentos iniciais, logo percebi que estava sendo evangelizado pelo motorista, entusiasmado com sua doutrina. Sua declaração de fé era muito simples e aliás, muito bem articulada em três frases curtas: “Deus abençoa quem se sacrifica; Deus honra quem persevera; e Deus abomina quem retrocede”.

Fiquei impressionado, e logo me aventurei a perguntar como aquilo funcionava no dia-a-dia. As respostas estavam sempre na ponta da língua: “Quando você quer receber uma graça de Deus tem de dar alguma coisa em troca”. Imaginei que isso explica a primeira parte, “Deus abençoa quem se sacrifica”. Fui esclarecido de que o tamanho da bênção depende do tamanho do sacrifício. Onde aparece “sacrifício”, leia-se “oferta financeira na corrente de fé”, que dura quarenta noites – o mesmo tempo que Jesus passou no deserto.
“Agora, se o senhor não receber a graça durante o tempo da corrente, não deve desanimar.” Esta é a aplicação da segunda parte, "Deus honra quem persevera", pensei. “Mas, olha, você não pode faltar nenhuma noite, nem desistir no meio da corrente, senão tem que começar tudo de novo.” Isso completa a declaração de fé: "Deus abomina quem retrocede".

Antes de descer do táxi, convicto de que o Espírito de Deus é o único capaz de guiar a toda verdade (Jo 16.13), resumi o Evangelho da graça de Deus em duas notícias, uma boa e outra ruim. Contei primeiro a pior das notícias: o pecado do homem faz separação entre Deus e os homens, e ninguém pode fazer nada para conquistar o favor de Deus. Em seguida, apresentei a boa notícia, a melhor delas: o sacrifício de Jesus da cruz é suficiente para que Deus nos abençoe com todas as bênçãos espirituais, pois se Deus não poupou nem mesmo seu Filho, como não nos dará também com ele todas as coisas? (Rm 8.31,32).

Fiquei olhando o táxi sumir na escuridão da noite, imaginando o que a Palavra Viva faria dentro do coração e da mente daquele homem durante a madrugada. Naquela noite me lembrei da história de Simão, um mágico muito respeitado que vivia na cidade de Samaria na época em que Filipe passou por lá pregando o Evangelho do Reino de Deus. Simão ficou impressionado, abraçou a fé e “foi batizado, e seguia Filipe por toda parte, observando maravilhado os grandes sinais e milagres que eram realizados” (At 8.9-13).

Simão podia facilmente ser confundido com um cristão: creu, foi batizado, foi discipulado e conviveu no ambiente das manifestações poderosas de Deus. Aliás, para quem olha de relance, Simão é cristão. Mas a história não termina aí. Lucas, o evangelista, conta que, quando Pedro e João chegaram a Samaria para verificar se o Evangelho pregado por Filipe era o mesmo que os apóstolos pregavam em Jerusalém,impuseram as mãos sobre os convertidos e todos receberam o Espírito Santo (At 8.14-17).

Simão, que já estava impressionado com Filipe, foi ao delírio com a demonstração de poder pelas mãos de Pedro e João. Imediatamente ofereceu dinheiro para que Pedro e João lhe dessem daquele poder extraordinário. Naquela hora, o apóstolo Pedro foi enfático: “O teu dinheiro seja contigo para perdição, pois julgaste adquirir, por meio dele, o dom de Deus”. Simão não entendera o fundamental: as bênçãos divinas são concedidas em razão da graça de Deus, e jamais pela conquista humana, pois não há nada que o homem possa fazer para merecer o favor de Deus.

A Bíblia conta a história de outros homens que também creram em Jesus, mas nem por isso se tornaram cristãos. Quando Jesus estava “em Jerusalém, na festa da Páscoa, muitos viram os sinais miraculosos que ele estava realizando e creram em seu nome. Mas Jesus não se confiava a eles, pois conhecia a todos” (Jo 2.23,24). Em outras palavras, crer no poder e na autoridade do nome de Jesus não faz de ninguém cristão.

Receio que este mesmo fenômeno esteja acontecendo hoje na cristandade. As pessoas estão descobrindo que Jesus é maior do que os exus, tranca-ruas e outros bichos e saem por aí declarando, com toda razão, que Jesus Cristo é o Senhor. Mas acontece que querem se relacionar com Jesus como se relacionavam com os demônios ou santos de devoção, isto é, pela via das promessas, penitências, sacrifícios e ofertas. Acreditam que Deus abençoa quem se sacrifica, honra quem persevera e abomina quem retrocede. Julgam que podem comprar o dom de Deus e caminham para a perdição, a exemplo do pseudocristão chamado Simão.

Seja sobre nós o Espírito de toda a verdade, e faça triunfar no Brasil o Evangelho da graça de Deus.

3 comentários:

Agnaldo Gomes disse...

Infelizmente o que tem acontecido em muitas Igrejas é lamentável.
São tantas "invenções" feitas pelos homens...
São tantas "campanhas" e "correntes"...
Só nos resta continuar firmados na Palavra e orarmos por muitos que tem abraçado este tipo ensino.
Em Cristo,
Agnaldo Gomes
www.despertaigreja.com

Junior disse...

Grande Agnaldo!

Infelizmenmte, esse é o evangelho que temos visto ser propagado em nossa nação.
Oremos para que Deus levante homens e mulheres capacitados para mudar o rumo dessa história.

Com carinho,
Junior

Juber Donizete Gonçalves disse...

Junior,

Pela história de Simão, dá para ver que essa história das barganhas e comércio com as coisas sagradas é antigo. Postei um artigo sobre essa passagem bíblica, há uns cinco meses atrás.

Abraço.

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