quarta-feira, 10 de março de 2010

Ensaio sobre o Neopentecostalismo


Um historiador já afirmou que o poder não convive com o vácuo, mas com o vazio. Foi exatamente isso que ocorreu com a Igreja Evangélica Brasileira no fim dos anos 80 e início dos 90. O pentecostalismo explodia, seus templos se multiplicavam pelo país e atraiam verdadeiras multidões. Estavam colocadas as condições para o surgimento de uma nova liderança, voluntariosa, de homens prontos para fazer a obra do Senhor.

Alguns desses novos líderes haviam saído da Assembléia de Deus, tinham uma base sólida, pois haviam crescido através da oração. Mas entre eles também contavam-se homens que converteram-se há pouco, estavam fora e foram atraídos pelo crescimento extraordinário do Evangelho. Queriam fazer parte disso e aí decidiram criar seus próprios ministérios. Movimentos como a ADHONEP (Associação dos Homens de Negócio do Evangelho Pleno) serviram de plataforma para projetá-los. O aparecimento dessa nova liderança coincide com uma importante mudança ocorrida no fim dos anos 80. Até então havia uma concentração de fiéis nas classes menos favorecidas (C, D e E). Com o surgimento dos neopentecostais, o Evangelho começa a ter penetração também nas classes A e B.

Inicia-se aí um processo, por assim dizer, de elitização da fé. Essa mudança é sintomática, uma vez que a partir desse instante uma corrente doutrinária especial vai se tornando prevalente, cuja ênfase vai estar exatamente na bem-aventurança material do crente e na pregação do sucesso como intrínseco à condição de filho de Deus. Surgida na esteira do crescimento dos pentecostais, a nova liderança precisou disputar espaço com a estrutura tradicional de poder da Igreja Evangélica Brasileira. A velha liderança, contudo, não estava preparada para absorvê-la nem aceitar seus métodos. Via com desconfiança esses “crentes” vindos de fora, impactados pela mensagem do Evangelho, desejosos de por fogo no mundo, mas sem paciência para aprender. Sem se intimidar, os novos líderes não perderam tempo: iniciaram ministérios, abriram suas próprias igrejas e foram para a mídia. Assim teve início a ascensão meteórica dos neopentecostais.

O que, afinal, há de errado com essa nova liderança? Embora honestos em sua fé, seus representantes não se livraram dos vícios sincréticos da cultura brasileira. Daí seus ministérios serem sincréticos, com uma pregação também sincrética. Pentecostais no discurso, pregam parte das ênfases evangélicas, mas pagam tributo à herança católica e espírita populares. Carecem de ciência teológica para separar as coisas. Os que identificam no discurso neopentecostal a união espúria entre fé e superstição, denunciam como heréticos seus propagadores. Escandalizados, batem a porta na cara deles. E declaram: “Vamos parar por aí, isso já passou dos limites”. Os que assim agem falam a partir do conhecimento que possuem da história e da teologia da Igreja Evangélica Brasileira. O que os preocupa é menos a polêmica do que a integridade da fé; mais a defesa do Evangelho do que a prerrogativa de ser histórico.
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Talvez nenhum outro país tenha um caldo cultural tão complexo quanto o Brasil. Somos miscigenados. Uma raça que é todas e nenhuma. O efeito desse mosaico de traços culturais díspares revela-se mais fortemente em nossa religião, acentuadamente sincrética. Esta é uma constatação assustadora. No Brasil, afirma Ricardo Gondim, em seu livro O Evangelho da Nova Era, “negros, europeus e nativos deixaram de ser africanos, brancos e índios para assumirem simplesmente uma nova identidade”. E completa: “Se esta peculiaridade ajudou para que o Brasil tivesse uma só língua, uma só cozinha, contribuiu também para que nascesse uma religião nova, autenticamente nacional”.

O movimento neopentecostal se fortalece precisamente desse sincretismo religioso, desse ambiente indistinto, no qual as “verdades” não se excluem, antes se reforçam. Numa religião sincrética o Evangelho ganhará todos e nenhum sentido na boca de católicos, espíritas e evangélicos. É a fé a la carte! Todos os componentes místicos autênticos do Cristianismo como que se diluem, perdem sua força em contato com elementos espúrios que tem apelo menos à razão do que ao coração, capturam mais a imaginação do crente do que sua capacidade de pensar. A superstição toma o lugar da fé, o transcendente dá lugar ao esotérico, o espiritual confunde-se com o oculto. Entramos na esfera do sobrenatural, mas não necessariamente na presença de Deus.

Extraído do livro "É tempo de refletir" de Ariovaldo Ramos e Ricardo Bitún.

2 comentários:

Elias Aguiar disse...

Graça e Paz, Junior!

'Cê às vezes fica meio calado... mas quando abre a boca é contundente, hein?

:)

Um abraço,
Elias Aguiar

Junior disse...

Paz Elias,

Fico feliz por sua presença em nosso espaço.
Não cansemos de denunciar os movimentos heréticos no seio da igreja.

Abraços

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