quinta-feira, 30 de abril de 2009

Insight - 2

Meu mais recente esforço de fé não é do tipo intelectual. Eu realmente não faço mais isso. Mais cedo ou mais tarde você simplesmente descobre que há alguns caras que não acreditam em Deus e podem provar que ele não existe e alguns outros caras que acreditam em Deus e podem provar que ele existe - e a esse ponto a discussão já deixou há muito de ser sobre Deus e passou a ser sobre quem é mais inteligente; honestamente, não estou interessado nisso.

Por Donald Miller

A ética cristã entre muros e pontes


A Imprensa volta a noticiar uma problemática que foi tema de muitos debates há alguns anos atrás.
Na ocasião, Valdemar Figueredo Filho, nos trouxe uma brilhante reflexão sobre a "muralização" das favelas.

Segue na íntegra a exímia abordagem do pastor e flamenguista doente.
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"Concordo com o Conde quando diz que as favelas devem ser muradas. A proposta é polêmica, mas a reação da mídia e de setores da sociedade foi o que de fato me surpreendeu. Estaria o nobre Conde propondo uma grande novidade ou seria o nobre Conde um arquiteto que dá formas concretas ao que já está entre nós? Ele, o Conde, tratou de apresentar evasivas e retirar sua proposta herética. Eu, que nobre não sou, mantenho, minha adesão a ela. Tudo bem que topograficamente as favelas sejam altas, mas não precisam ser largas. Em outros termos, que as favelas sejam olhadas de bem longe, mas que não se esparramem pelo espaço urbano a ponto de misturar-se com os meus vizinhos. Muro nas favelas! Por favor, não pense que sou porta-voz desse discurso. O muro que julgo ser necessário erguer é de uma outra natureza, nada tem a ver com essas motivações mesquinhas. Ele cumpre um outro papel social. Mas antes de tratar do muro que julgo conveniente, pensemos brevemente em alguns contextos em que cidades foram muradas.

Vamos dar um pulinho na Idade Média e visitar as cidades episcopais. Tais cidades eram muradas. Antes de adentrarmos a cidade, andamos pelos arredores e proseamos com os camponeses que mantinham a cidade com a agricultura e com os impostos que pagavam pelo uso da terra. O bispo e sua corte – clero – estavam intramuros, ocupados com seus assuntos elevados. Nesta sociedade, o muro cumpria um papel social relevante: demarcava a diferença entre o clero e os camponeses; entre a cidade e a periferia; entre receptores e doadores; enfim, entre o sagrado e o profano (Pirenne, 1976:46).

Aproveitemos nossa viagem no tempo para passar nos burgos. Estamos em plena dissolução do Império Carolíngio. Tempo de muitas incertezas, mas ao menos uma certeza: construir muros era o que havia de mais urgente. Sabe lá quando vêm os sarracenos ou os normandos? Construamos muros e fechemos os portões! Em poucas palavras, os burgos eram cidades muradas que dentro do possível asseguravam proteção aos príncipes feudais e à população adjacente (Ibid.:47).

Estamos ainda gozando dos ares europeus na Idade Média – para uns, frios demais, e para outros, frescos, frescos demais. Percebemos um intenso movimento de camponeses que deixam o campo e migram para as cidades. Não era o caso de um movimento espontâneo ou um mero acaso. A burguesia era a orientadora desta mudança significativa. Afirmava com isso seus interesses diante da recalcitrante igreja e dos perplexos senhores latifundiários. Percebemos que também nestas cidades burguesas os muros foram construídos com propósitos precisos. É de fundamental importância atinar para o fato de que os muros burgueses nada tinham que ver com os muros das cidades episcopais e nem com os muros das cidades dos príncipes feudais. Os mercadores tratavam de construir muralhas para não correrem o risco de saques. As muralhas urbanas da burguesia eram justificadas na medida em que as mercadorias tinham que ser protegidas. A construção de muralhas e a manutenção de cidades fortificadas exigiam um permanente esforço das camadas populares para pagar os tributos. Ou você pensou que ia se proteger dentro da cidade de graça? (Ibid.:59). O paradoxo é o seguinte: na cidade burguesa, muros são construídos com pedras, areias, sangue e carne. O entulho massa humana servia para proteger as mercadorias de eventuais pilhagens.

Jamais estive numa cidade episcopal, quem me dera conhecer o Vaticano! Muito menos conheço burgos regidos por príncipes feudais. Mas, convenhamos, a cidade murada burguesa nos é familiar. O projeto burguês é um projeto vencedor que superou séculos, atravessou mares e hoje perdura entre nós.

Saindo da Idade Média na Europa e chegando à nossa favela carioca, construir muros em torno das favelas é tão-somente dar visibilidade ao que de fato já existe. De alguma forma, quem vive nesta cidade maravilhosa sabe os que são de dentro e os que são de fora. A favela está fora! Perceba que muros não são para proteger as favelas, antes, protege a cidade das favelas. O nobre Conde em questão pensa com cabeça de urbanista e se mostra ingênuo quanto às implicações de suas teses (é claro que não faço justiça ao Conde e o que digo dele não passa de uma caricatura). Dar visibilidade ao muro é dar visibilidade a outras coisas sérias, como, por exemplo: há entre nós segregação no sentido pleno da palavra. Vigora separação de caráter racial. Observamos um sistema judiciário orientado para os que estão intramuros. A força policial não reconhece a favela como espaço da cidade. É fácil distinguir a cultura da favela como cultura de gueto. Enfim, há entre nós muros construídos para proteger as mercadorias de eventuais saques. Há entre nós muros! Quanto a nós, igreja evangélica histórica brasileira, há muito que fizemos a nossa opção preferencial pelos ricos e classe média da cidade. Isto é, escolhemos viver intramuros. E mesmo as igrejas que espacialmente estão à margem, preferem se identificar com as igrejas que estão no centro. Pelo que sei, são poucas as igrejas que assumiram sua natureza e encarnaram o jeito de ser dos que vivem fora do muro. Na concepção de Niebuhr (1992), as igrejas evangélicas deserdaram os pobres no afã de identificar-se com as classes privilegiadas. Como resultado surgem as seitas evangélicas, expressões destoantes em termos eclesiásticos e sociais. Neste pensamento, a institucionalização denominacional das igrejas históricas é um movimento em direção às classes privilegiadas em detrimento da linguagem e roupagem que caracterizam os pobres da cidade. Portanto, a linguagem do pobre é herética por natureza, ela sempre desestabiliza a ordem, seja a ordem litúrgica ou a ordem social. A linguagem das camadas populares é destoante e sempre está fora de ordem.

Preciso avisar que este meu desafogo não é orientado nem pelo marxismo nem pela Teologia da Libertação. Acho que está na hora de sacarmos alguns temas que estão nos balaios ideológicos e considerá-los à luz da ética cristã. É daqui que eu reflito, é aqui que me debato e é aqui o meu confronto – ética cristã! É a partir da ética cristã que proponho a visibilidade das favelas muradas. Recuso a tendência de romantizar a favela, nem quero que suas ruelas sejam transformadas em pistas de jipe para passeios de turistas curiosos, num tipo de safári urbano onde o que importa é a adrenalina do perigo do lugar, bem como os seus tipos exóticos. Seria uma grande ilusão pensar que foram as camadas populares que construíram a favela. E já que não foram os nativos que construíram os muros das favelas, acho que cabe a eles derrubá-los.

Espero que a esta altura você já tenha entendido que quando digo concordar com construções de muros estou fazendo uso de uma metáfora. E já que estou nestas águas, deixe-me abusar. Minha proposta é que nossas igrejas se transformem num tipo de casa de Raabe. Explico: por mais paradoxal que seja, a casa de Raabe era estratégica para pôr fim aos muros de Jericó justamente porque estava localizada no muro. A igreja evangélica se faz presente no morro carioca bem como nos vales aplainados onde residem as camadas sociais privilegiadas. Somos uma chance que a cidade tem de diálogo. Vou mais longe: somos a melhor chance para pôr muros abaixo e promover encontros. Na relação cidade e favela carioca, não reconheço outra instituição que possua melhores condições que a igreja evangélica para promover encontros e justiça. Não podemos naturalizar a favela de tal forma a transformá-la num bairro, mas mantê-la na condição de favela. Da mesma maneira, não podemos supor favela como um campo de missões urbanas onde propomos melhorias pontuais sem jamais indagar sobre as suas causas e as forças que a mantêm. Em outros termos, podemos e devemos ir mais fundo no enfrentamento do que se convencionou chamar de justiça social. Espero sinceramente que não estejamos conformados com este século, cabeça formatada pela cultura, com tudo que isso implica, de maneira a nos sentirmos constrangidos com os valores do Reino. Mas, se nos submetermos ao longo e penoso processo de renovação da mente, podemos desconfiar da durabilidade dos muros construídos com pedras brutas. Concordo com todos que se encantam com a vida que viceja das favelas. Reconheço que há uma grande solidariedade e o termo comunidade define bem o tipo de interatividade que se vive nestes espaços. Sei, não por ouvir falar, mas por conviver, que as pessoas que habitam a favela são pessoas de bem, trabalhadoras, capazes, criativas e bambas. Tudo isso não me imobiliza, ao contrário, me anima, para argumentar contra o status quo. Não é a comunidade que deve ruir, mas sim as estruturas opressoras que geram pobreza e morte. Estruturas essas que são essencialmente excludentes.

Volto para a Idade Média e deparo-me com um tal de Francisco. Nobre. Ele sabia que o seu pai era um dos principais construtores e mantenedores das muralhas da cidade de Assis. Francisco de Assis fez o caminho inverso, deixou a vida burguesa e foi ao encontro dos pobres que estavam fora da cidade murada. Chegou à igrejinha de Porciúncula – a menor igreja de Assis. Sabemos que o movimento espiritual que dirigiu teve implicações sociais profundas. Em poucas palavras, Francisco de Assis deu visibilidade ao muro tão somente para propor a sua destruição. Quando expôs o muro, mostrou exatamente onde a igreja estava. Como se sentia parte da igreja, e a ela queria ser submisso, pelo exemplo a convidou a se desencastelar. Francisco confrontou com muito amor seus dois grupos de origem: a igreja institucional e a burguesia. Teremos nós a mesma coragem?"

Valdemar Figueredo Filho pastor, sociólogo, doutor em ciência política pelo Iuperj e flamenguista.

sábado, 25 de abril de 2009

Rapidinha 2

Fuja dos perigos da fama, do prestígio e da riqueza. Vários obreiros naufragaram em seus ministérios porque, feito mariposas, se enfeitiçaram com as luzes da ribalta. Eu fui tentado nessa área. Porém, há muito tempo, um rabino detectou minha sanha de aparecer e, amorosamente, me advertiu: "Meu filho, aprofunde sua caminhada com Deus e deixe que ele decida se lhe exaltará ou não". Hoje, transmito o que ouvi, com um acréscimo: Ao buscar fama e prestígio, talvez você consiga tornar-se célebre, mas condenará seu ministério à superficialidade.

Insight

Não permita que seus dons e talentos ofusquem o principal propósito de Deus para sua vida. O que o Senhor tem para fazer em você é, e sempre será, maior do que o que ele tem para realizar através de você.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Rapidinha

Os evangélicos brasileiros precisam acordar para o cerne do evangelho que não promete um mundo seguro, sem perigos e livre de sofrimentos. A boa notícia é que o Senhor se dispõe nos acompanhar em qualquer circunstância. Ouve-se frequentemente entre os evangélicos que Deus dará tudo o que seus filhos pedirem se, prostrados, o adorarem. Cuidado! Essa frase foi proferida por Satanás.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Aula de Omelética, farofa e arroz

Ética e espiritualidade


“Esta hora exige grandeza moral e audácia espiritual”. Com essas palavras, Abraham Joshua Heschel, um dos maiores pensadores judeus do século XX, encerrou um telegrama ao presidente John Kennedy. Ele cobrava ações concretas sobre direitos civis dos negros na década de 60. Depois dessa mensagem, mesmo sendo branco e judeu, Heschel marchou pelas ruas de Selam, Alabama, ao lado de cristãos como Martin Luther King e Andrew Young.

O Brasil também precisa de “grandeza moral e audácia espiritual”. Os problemas seculares que envergonham a nação continuam intocados: injustiça social, destruição da rede hospitalar pública, favelização das grandes metrópoles, abandono do pequeno produtor rural, falta de políticas de segurança pública e outras mazelas. O “florão da América” aparece com colocações medíocres em alguns índices de qualidade de vida da ONU; ganharia campeonatos de mortes no trânsito, de assassinatos à mão armada e de imigrantes ilegais barrados ou deportados de países como Inglaterra e Estados Unidos. A imprensa faz sua parte denunciando a vergonha nacional e as ONG’s lutam para reverter algumas realidades.

E os evangélicos? Existem heróicos esforços de gente que se embrenha pelos sertões abrasante do Nordeste, pela selva da Amazônia e nas periferias e morros pobres. Como movimento, os evangélicos continuam patinando em questiúnculas teológicas, eternamente debatendo pontos e vírgulas de textos controversos. E sobram exorcistas que sabem “amarrar demônios”, treinam-se evangelistas que salvam almas. A atuação evangélica como sal que evita processos de desintegração moral, ética, política, é praticamente nula e o Brasil continua imoral, pobre, violento e atrasado.
Para que a presença evangélica se torne eficaz, é necessário repensar alguns pressupostos teológicos:

A paternidade divina

Enquanto a paternidade divina não for conhecida, vivenciada e celebrada pelos crentes, sua espiritualidade se manterá utilitária, e pouco se conhecerá sobre graça. Infelizmente se alastram superstições medievais; amuletos que supostamente “dão um ponto de contato” para a fé; correntes e campanhas que pretendem gerar “orações fortes”. Pouco se fala da gratuidade do amor paterno, que sabe dar boas dádivas aos seus filhos; quase não se ouvem sermões sobre a inutilidade dos sacrifícios diante da grandeza do cuidado de Deus que provou seu amor ao entregar seu Filho, enquanto os homens ainda eram seus inimigos.

A natureza humana

Os evangélicos ainda mantêm uma idéia preconceituosa sobre os efeitos do pecado na raça humana. Acredita-se que as pessoas são tão pecadoras que se deve manter distância dos “incrédulos”. Com essa visão de mundo, os crentes são inclinados a viver em guetos, e a grande missão da igreja resume-se em tirar gente do mundo e trazê-las para dentro das igrejas, único ambiente que se acredita puro na face da terra. Essa visão descarta a compreensão de que, mesmo caídos, os homens ainda conservam a imagem de Deus. Significa que as pessoas que ainda não se converteram a Cristo, mesmo contaminadas pelo pecado, elas têm uma dignidade ímpar e podem ser honradas. Por isso, mesmo sem ser cristãos, médicos, juízes, escritores, poetas, músicos, políticos e policiais poder ter comportamentos e atitudes que são nobres e merecem a atenção de todos, inclusive dos crentes.

A missão da igreja

Ela não se constitui em salvar apenas as almas dos homens. É preciso que eles sejam salvos como pessoas. Isso significa que a missão da igreja não deve se resumir em preparar as pessoas para irem para o céu, mas em tornar o mundo em que vivem num lugar mais humano, mais justo e mais misericordioso. A missão da igreja também busca mudar as circunstâncias que aprisionam as pessoas. Não basta salvar a alma dos escravos, é preciso acabar com a escravidão; não basta resgatar os favelados da idolatria, é preciso desmantelar um sistema econômico que os condena à miséria; não basta condenar o aborto, é preciso dar às gestantes condições para sustentar filhos indesejáveis.

Por mais que seja necessário um avivamento de oração, piedade e leitura da Bíblia, ele será inócuo se a igreja não se conscientizar que Deus é Pai, que os crentes são apenas pecadores salvos pela graça e sua missão é tão terrena quanto espiritual.

sábado, 18 de abril de 2009

Retrô - Bem que tentei


Bem que tentei ouvir as mensagens triunfalistas dos evangelistas modernos e fazer delas meu modus vivendi, mas me decepcionei.

Bem que tentei envernizar minha voz para manipular os auditórios carentes de Deus.

Bem que tentei ser um levita, mas compreendi que levitas eram os descendentes de Levi, e por isso não me reportarei aos movimentos judaizantes.

Bem que tentei fazer da mensagem do evangelho meu ganha pão, fazendo tipo de evangelista que diz que “vive da fé”, com falsos pensamentos piedosos de que tudo é para glória de Deus.

Bem que tentei acreditar nas promessas messiânicas dos profetas hodiernos, sempre em busca de exaltação.

Bem que tentei ser mais conservador, fundamentalista e ortodoxo, mas a graça me alcançou.

Bem que tentei ser mais devoto à instituição Igreja, fazendo dela uma mãe, assim como fazem os universais (católicos).

Bem que tentei até mesmo abandonar a igreja, mas dou a mão à palmatória para os calvinistas que crêem na graça irresistível e na eleição incondicional.

Bem que tentei ser calvinista, mas entendi que por soberania divina, Ele optou por me dar liberdade de escolhas, e por isso me amou.

Não sei bem quando isso me pegou, só sei que aprendi a pensar “fora da caixa”. Às vezes me pergunto se estou desviado, e algo me diz que sim. Desviei-me dos pensamentos infantilizadores que faziam de Deus um deus. Confesso que até tentei me coadunar com o sistema religioso, mas percebi que é regredir demais.

Como diz um prestimoso pastor: “Enfim, morreu em mim aquele deus parecido com a figura idealizada de um superpai, que levou homens como Freud, Nietzsche e Sartre a desdenhar da religião”. E continua: “O deus que morreu foi exaltado na subcultura da religiosidade evangélica brasileira. Era basicamente um deus que: 1) vivia de plantão para me poupar de qualquer tragédia, evitar meus sofrimentos e abreviar as situações que me trariam qualquer desconforto; 2) prometia satisfazer não apenas minhas necessidades, mas também meus desejos; 3) estava comprometido com favorecer-me em todas minhas demandas contra os pagãos; 4) compensava minhas irresponsabilidades e ignorâncias em troca de minha fé; 5) manipulava todas as circunstâncias de minha vida como um tapeceiro que corta fios e dá nós no emaranhado do avesso do tapete para revelar a bela paisagem no fim do processo, capaz de encantar todos aqueles que olham pelo lado certo".

Experimentei a metanóia, que chamam "arrependimento". Vivo sob valores, prioridades e propósitos diferenciados. Conhecer a Deus me faz andar na luz, na verdade, livre de pesos, culpas e máscaras, e isso já basta para que minha vida dê um salto de qualidade imensurável.

Eu até que tentei...

sábado, 11 de abril de 2009

Deus


Creio em Deus e em sua onipotência; creio em sua soberania e onisciência. Embora a revelação das Escrituras sobre Deus não seja exaustiva, considero-a verdadeira e suficiente. Acredito que Deus guia e controla a história de acordo com o seu propósito. Não isolo ou exalto nenhum atributo de Deus acima de outros. Entretanto, acredito que Ele criou mulheres e homens com a nobre virtude da liberdade. Aceito que Deus considera as ações humanas e as respeita. Não concordo com a teologia da “apatia” divina. Não aceito o determinismo dogmático da teologia.

Aceito o relato bíblico de que Deus, soberanamente, criou o mundo onde pessoas são livres para rejeitar seu conselho e vontade. Para mim é um acinte a religião considerar que Deus, em tempos imemoriais, criou algumas pessoas com o propósito de torná-las cidadãs do céu e outras só para jogá-las no inferno. Assim, não creio na predestinação, nem no sacrifício parcial (Cristo teria morrido apenas pelos eleitos) de Cristo na cruz, nem posso aceitar que a história, com todas as suas idiossincrasias, tenha sido, nos mínimos detalhes, escrita e determinada pelo Senhor.

Para mim, repensar conceitos teológicos da Idade Média sobre onisciência não anula a onisciência divina; re-qualificar o que se entendeu por soberania numa época em reis eram déspotas não anula a soberania bíblica; falar de percepções do tempo e do espaço de quando se aprendeu física quântica não invalida o que a Bíblia ensina sobre aleatoriedade e contingência.

Extraído do livro "Eu creio, mas tenho dúvidas".
Ricardo Gondim

terça-feira, 7 de abril de 2009

Obrigação moral sem livre-arbítrio


Nenhum sistema moral será possível a menos que o indivíduo seja considerado responsável pelas suas ações e decisões. Não poderá ser julgado se não lhe foi dada escolha, e se agiu debaixo de pressão, vinda da parte de sua natureza perdida, por opressão do diabo ou por permissão de Deus. O julgamento, em todas as sociedades humanas, se baseia na premissa que um homem podia ter agido de outra maneira, se assim tivesse querido fazê-lo. Todos os sistemas éticos, a recompensa pelas boas ações e o castigo pela má conduta, dependem do fato de que um homem poderia ter agido diferentemente, se assim desejasse. Ninguém merecerá recompensa pelo bem praticado, se porventura isso não partiu de sua própria vontade, ainda que a influência divina é que o tenha levado a essa atitude.

Alguns apologistas como Norman Geisler, irão declarar que o fato de não considerar o livre-arbítrio no homem é destruir o poder e a justiça de todo o mandamento moral que há nas Escrituras. Além disso, consideremos que as Escrituras ensinam que o homem pode falhar, até mesmo após a sua conversão. Notemos, especialmente em Filipenses 2:12, como a questão inteira da salvação é apresentada de tal modo que a poderíamos comparar com uma estrada de duas vias: uma humana e outra divina.

Há na salvação o encontro e o intercâmbio entre Deus e o homem. Todos os mandamentos que nos impelem à ação moral, conforme se vê nos capítulos terceiro e décimo segundo das epístolas aos Colossenses e aos Romanos, respectivamente, bem como em todas as demais passagens bíblicas que versam sobre a conduta humana, nada significariam, a menos que o homem pudesse ser-lhes obediente ou desobediente, de conformidade com a aceitação ou a rejeição que fizer da vontade divina, que sobre ele atua. Simplesmente não há como alguém erguer um sistema moral, com exigências e advertências válidas, com recompensas e punições, a menos que o homem possua livre-arbítrio, a menos que possa ceder aos impulsos divinos ou resistir aos mesmos. A Bíblia inteira, tanto em seu convite à salvação como em seu sistema ético, se alicerça nesse fato. O homem certamente é livre para escolher, contudo, sobre a decisão dos fatos que circundam a escolha, falaremos em artigo próximo.

Por Valtencir Alves

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Retrô - Páscoa


Serei honesto. Os dias estão corridos. Os trabalhos estão multiplicando. Por isso, falta-nos inspiração para novos textos. Diante disso, iniciarei uma série de Retrospectiva do ano passado. Em breve voltaremos com força total.

O post abaixo foi escrito próximo a Páscoa do ano de 2008.
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Estamos nos aproximando da Páscoa. Essa data nos recorda muitos chocolates. Mas seu verdadeiro significado não está no coelhinho nem nos chocolates.

Quando chegamos perto desta data tão festiva para os judeus, somos levados a relembrar daquelas intervenções divinas feitas por Yahweh no êxodo do Egito para uma terra que manava leite e mel.

Para nós, igreja hodierna, a Páscoa tem um significado parecido com a comemoração dos hebreus – libertos do mundo (Egito) para serem livres para Deus. E quando nos retratamos para esta data, a ressurreição de Cristo é o ápice de toda esta história. Uma manhã de domingo muda a história da humanidade.

Penso que se Cristo apenas morresse e não ressuscitasse, seus ensinamentos de nada valeriam. Seria apenas um mártir como Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi e outros que revolucionaram a história de suas nações. Mas como bem disse Paulo: “E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé”.

Mas quando olhamos para aquilo que se transformou a Páscoa em nossos dias, fico perplexo como a mídia faz um chamariz para a venda de produtos que nada tem haver com aquilo que significa minha libertação de um mundo tenebroso. Na verdade, bem que a mídia tentou reproduzir esses seus simbolismos para dentro do cristianismo, mas infelizmente para eles, não colou. Esses símbolos nada reproduzem os mistérios do novo nascimento. Dizem que o ovo fala da existência da vida, que logo está intimamente ligado ao nascimento. Pura balela.

Já os coelhinhos, representam animais com capacidade de gerar grandes ninhadas; sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos constantemente.

Bem, se fosse essa a intenção da mídia em fazer esses paralelos, poderia até que surtisse algum efeito para o cristianismo. Mas a mensagem central do Evangelho de Cristo está sendo apagada por uma mentalidade brasileira, que tudo que vem de fora é acrescido a nossa cultura. Recebemos uns enlatados do exterior que se reflete até em nossas mensagens, sermões e pregações.

Portanto, voltemos logo à mensagem central do Calvário. Lembremos daquela manhã de domingo quando o sepulcro de Jesus já estava vazio. Lembremos daquelas palavras dos varões com roupas reluzentes às mulheres no sepulcro: “Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou.”

quinta-feira, 26 de março de 2009

Máximas Teológicas - 13

Voltamos com o quadro "Máximas Teológicas"; e o célebre desta pérola é nada mais nada menos que John Stott.

"Teologicamente, tem havido um redescobrimento da doutrina da criação. Tendemos a ter uma boa doutrina da redenção e uma péssima doutrina da criação. Naturalmente, temos tido uma reverência de lábios à verdade de que Deus é o Criador de todas as coisas, mas, aparentemente, temos estado cegos para as implicações disto. Nosso Deus tem sido por demais “religioso”, como se o seu principal interesse fosse cultos de adoração e oração freqüentados por membros de igrejas. Não me entenda mal: Deus tem prazer nas orações e louvores do seu povo. Mas, agora, começamos a vê- lo, também (como a Bíblia sempre o retratou), como o Criador, que está interessado tanto pelo mundo secular quanto pela Igreja, que ama a todos os homens e não somente os crentes, e que tem interesse na vida como um todo, e não meramente na religião".

segunda-feira, 23 de março de 2009

O preço do conhecimento (2)


Certa feita, em sala de aula no seminário, levantamos a questão do “conhecimento” versus “ignorância”. Em um momento de nossos calorosos debates, nosso professor usou uma expressão meio pesada para se dirigir aos néscios e ignorantes na fé, chamando-os de “idiotas na fé”. Sei que soou mal, mas no decorrer de nossos embates, quase todos concordaram com o professor que um dia nós fomos assim, em tempos que não tínhamos nenhum conhecimento e éramos levados pelas emoções sempre muito bem trabalhadas pelos tele-evangelistas e pregadores midiáticos.
Depois de dar a mão à palmatória ao nosso professor, começamos a discorrer o que poderíamos conceituar de “idiotas na fé”.

Vejamos primeiro o conceito de “idiota” conforme o dicionário: Falto de inteligência; parvo; estúpido; ignorante.
Dado o conceito, vejamos agora as características que fizeram com que recebessem esse rótulo tão pejorativo:

- Tratam a fé somente para se conquistar as benesses de Deus, sempre em busca de milagres.
- Ainda não têm claro em sua mente os conceitos de Igreja e Reino de Deus.
- Tratam o dízimo como uma barganha com Deus. Esquecem que o dízimo neotestamentário é voluntário e que o parâmetro dos 10% é o mínimo que deveríamos dar.
- Repetem tudo o que o pregador manda dizer ao irmão do lado.
- Se sentem super-ungidos quando recebem o dom de línguas e se acham superiores aos que ainda não possuem.
- Tratam o pecado numa escala de hierarquia como se existissem pecadinhos e pecadões.
- Tratam a igreja (instituição) como os universais (católicos), onde fora dela não tem salvação.
- etc.

Enfim, temos que reconhecer, éramos idiotas e não sabíamos.

Pena que alguns ainda continuam a ser, mesmo depois de largo período na igreja.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Salvos da perfeição


Deus de tão perfeito conheceu a plenitude do tédio. De tão cercado pelo idêntico a si mesmo, incapaz de dizer por que hoje não é apenas um reflexo de ontem, sem jamais ter sonhado com um outro dia, enfadado com a previsibilidade de um mundo impecável, inventou o amor. Ou seria, preferiu amar?
A invenção do amor, ou dos amigos, é o encontro com o imperfeito e aqui está a sua grandeza. Nada se compara ao êxtase da imaginação, à adrenalina do inusitado, ao ciúme diante do livre amante, à ardência do anseio pelo melhor, ao sabor fugidio do fugaz, à satisfação de um mundo transformado, ao descanso gostosamente dolorido diante do que não mais é caos. Sensações próprias da vida imperfeita, do que está para sempre para ser, dos que sempre podem desejar uma outra coisa. Dos humanos.
Logo depois de inventar o imperfeito, Deus conheceu a lágrima da frustração. A dor mais feliz que espíritos livres sentem. Viu as costas dos que mais amou. Duvidou sem desistir, o Criador chorou mais uma vez. Desta lágrima descobriu o perdão. Lágrima esquentada com afeto e graça.
Mal compreendido pelos amigos, inimigos tolos, pecado, recobriram-no de ídolo. De tão cansados do incerto, angustiados por tanta liberdade, os amigos inventaram ídolos, pretensos profetas e arrogantes senhores do futuro, sacerdotes e magos de um deus acuado, cristos milagreiros da mesmice ressurreta. Inventaram a religião, vestiram-se de absoluto.
Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição.

Por Elienai Jr.

terça-feira, 17 de março de 2009

Conservadores ou radicais?


A Segunda polarização desnecessária na igreja contemporânea refere-se a “conservadores” e “radicais”. Devemos começar pela definição dos termos. Por “conservador” estamo-nos referindo às pessoas que estão determinadas a conservar ou preservar o passado e são, por isso, resistentes a mudanças. Por “radical” referimo-nos às pessoas que estão em rebelião contra o que é herdado do passado e estão, por isso, fazendo agitações por mudanças.
Deixai-me, agora, definir mais precisamente em que sentido cada crente deveria ser um conservador e um radical, ao mesmo tempo: Cada crente deveria ser conservador porque toda a Igreja é chamada por Deus para conservar sua revelação, para “guardar o depósito” (I Tm. 6:20; II Tm 1:14), para “batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos”, Jd 3. A tarefa da Igreja não é continuar inventando novos evangelhos, novas teologias, novas moralidades e novos cristianismos, mas, antes, ser uma guardiã fiel do único Evangelho eterno, pois a auto-revelação de Deus alcançou sua consumação no seu Filho Jesus Cristo e no testemunho apostólico de Cristo, preservado no Novo Testamento. Isto não pode ser alterado de forma alguma: É imutável em verdade e autoridade.(...)

Alguns crentes, contudo, não limitam o conservantismo deles à teologia bíblica que professam. O fato é que são conservadores por natureza. Eles são conservadores na política e na perspectiva social, no estilo de vida, no estilo de vestir, no estilo de cortar o cabelo, no estilo da barba, em qualquer outro tipo de estilo que se mencione.

Não estão apenas atolados na lama, a lama deles endureceu como concreto. Mudança de qualquer tipo é anátema para eles.(...)

Um “radical”, por outro lado, é alguém que faz perguntas grosseiras sobre as tradições estabelecidas. Ele não considera qualquer tradição, qualquer convenção e qualquer instituição (ainda que antiga) como sendo sacrossanta. Ele não reverencia “vaca sagrada” alguma. Pelo contrário, está preparado para submeter qualquer coisa herdada do passado ao escrutínio crítico. E seu escrutínio geralmente leva-o a querer reformas, até mesmo revolução.

Um radical reconhece a rapidez com que a cena do mundo está mudando hoje. (...) Sabendo que mudanças são inevitáveis, ele dá-lhes as boas-vindas e se ajusta para a chegada de qualquer mudança. E até mesmo a inicia.

Parece então à primeira vista, que conservadores e radicais estão em oposição e que não podemos fazer outra coisa senão polarizar nesta questão. Mas não é bem assim. Não é bem entendido que nosso Senhor Jesus Cristo foi conciliatoriamente um conservador e um radical, embora em esferas diferentes. Não existe a menor dúvida de que ele foi um conservador em sua atitude para com as Escrituras. As Escrituras não podem ser anuladas, “nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido”, (Jo. 10:17; Mt. 5:17,18). Uma das principais queixas de Jesus contra os líderes judeus da sua época referia-se ao desrespeito por parte deles pelas Escrituras do Velho Testamento e à falta de uma verdadeira submissão à sua autoridade divina.
Mas Jesus pode também ser verdadeiramente descrito como um radical. Ele foi um crítico mordaz e destemido do tradicionalismo judeu, não somente devido à insuficiente lealdade que havia para com a Palavra de Deus, mas, também, devido à lealdade exagerada às próprias tradições humanas. Jesus teve a temeridade de lançar fora séculos de tradições que tinham sido herdadas, “as tradições dos anciãos”, para que a Palavra de Deus pudesse ser apreciada e novamente obedecida. (Mc. 7:1-13). Ele foi, também, muito ousado nas violações das convenções sociais. Insistiu em preocupar-se com todas as áreas da comunidade que eram normalmente menosprezadas: falou com mulheres em público, o que não era aceito nos seus dias, convidou crianças para que viessem a Ele, embora na sociedade romana crianças rejeitadas fossem geralmente “abandonadas” ou deixadas ao relento, o que levou os discípulos a acharem que ele não gostaria de ser incomodado por elas. Ele permitiu que prostitutas o tocassem (os fariseus afastavam-se delas horrorizados) e Ele mesmo, na realidade, tocou num leproso intocável (os fariseus apedrejavam-nos para que fossem mantidos à distância). Destas e de outras maneiras, Jesus recusou-se a ser preso por costumes humanos: sua mente e consciência estavam presas unicamente à Palavra de Deus. Por conseguinte, Jesus foi uma combinação única do conservador e do radical.
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Cristianismo equilibrado
John Stott

sábado, 14 de março de 2009

Criação


A mensagem cristã não começa com "Aceite a Jesus como Salvador", mas com "No princípio, criou Deus os céus e a terra". A Bíblia ensina que Deus é a fonte exclusiva de toda a ordem criada. Nenhum outro deus concorre com Ele; não existe força natural própria; nada recebe sua natu­reza ou existência de outra fonte. Sua palavra, ou leis, ou ordenanças da criação dão ao mundo ordem e estrutura. A palavra criativa de Deus é a fonte das leis da natureza física que estudamos nas ciências naturais. Tam­bém é a fonte das leis da natureza humana — os princípios da moralidade (ética), da justiça (política), do empreendimento criativo (economia), da estética (artes) e até do pensamento claro (lógica). É por isso que Salmos 119.91 declara:"... tudo está a teu serviço" (NVI). Não há assunto, tema, matéria que seja filosófica ou espiritualmente neutra.
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Nancy Pearcey
Verdade Absoluta

terça-feira, 10 de março de 2009

Graça x Religião


No cristianismo, o amor não é dado aos que já são dignos. Ao contrário, ele quer bem ao que nada vale e lhe outorga valor. A graça habilita o amor de Deus de se expressar sem exigir absolutamente nada. "O homem amado por Deus não tem nenhum valor em si; o que lhe dá um valor é o fato de Deus amá-lo".
Essa compreensão da graça de Deus é central nos evangelhos, por inúmeros motivos. Primeiro, nos alivia de enormes tensões religiosas. A graça não permite que Deus seja uma ameaça. O emaranhado de leis e regulamentos muitas vezes dificulta o conhecimento de Deus. Acaba escondendo-o!
Os judeus gostam de contar uma antiga história sobre um rabino que chegou em casa certo dia e encontrou sua filha, de nove anos, chorando muito. Perguntou-lhe porque tantas lágrimas. Entre soluços respondeu que estava brincando de escondeesconde com seus amigos. Na sua vez, se escondeu tão bem que os amigos desistiram de procurá-la e foram embora para brincar de outra coisa. Depois de mais de uma hora, quando saiu do esconderijo viu que estava sozinha. Na hora em que o rabino passava a mão na cabeça de sua filha, consolando-a, pensou: Será que a religião conseguiu esconder Deus tão bem que ele se sente sozinho e abandonado?

Não seriam as exigências religiosas um empecilho ao conhecimento de Deus? Erasmo de Rotterdam, um dos precursores da Reforma Protestante, clamou que a Igreja retornasse a Cristo sem o peso das exigências e doutrinas humanas. Seu pedido precisa ser ouvido:

"Verdadeiramente o jugo de Cristo seria suave, e seu peso leve, se as mesquinhas instituições humanas não acrescentassem coisa alguma ao que ele mesmo impôs. Ele nada nos ordenou a não ser o amor uns pelos outros, e não há nada, por mais amargo que seja, que a afeição não suavize e adoce. Tudo segundo a natureza é facilmente suportável, e nada concorda melhor com a natureza do homem do que a filosofia de Cristo, da qual o único fim é devolver à natureza caída sua inocência e integridade... A igreja acrescentoulhe muitas coisas, das quais algumas se podem omitir sem prejuízo da fé...
Que regras, que superstições nós temos a respeito da vestimenta!... Quantos jejuns se instituem!... Oxalá os homens se contentassem em deixar Cristo governar pelas leis do Evangelho, e não mais procurassem fortificar sua tirania tenebrosa como decretos humanos".
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Extraído do livro "É proibido"
Ricardo Gondim

sábado, 7 de março de 2009

Unidade, liberdade e caridade


Minha preocupação é chamar a atenção para uma das grandes tragédias da cristandade contemporânea, que é especialmente visível no meio de todos nós que somos chamados (e, na verdade, é como nós nos chamamos) cristãos evangélicos. Numa única palavra: essa tragédia chama-se polarização. Serei mais específico sobre o que quero dizer.
O pano de fundo para a tragédia é a nossa substancial concordância no histórico cristianismo bíblico. Nossa união nos fundamentos da fé cristã é coisa grande e gloriosa. Cremos em Deus Pai, infinito e pessoal, santo, criador e sustentador do Universo. Cremos em Jesus Cristo, o único Deus-homem; em seu nascimento virginal , em sua vida encarnada, na autoridade do seu ensino, em sua morte expiatória, na sua ressurreição histórica, e em seu retorno pessoal á terra. Cremos no Espírito Santo por cuja inspiração especial as Escrituras foram escritas e por cuja graça pecadores são hoje justificados e nascidos de novo, transformados na imagem de Cristo, incorporados à Igreja e enviados para servir no mundo. Nestas e em outras grandes doutrinas bíblicas, permanecemos firmes pela graça de Deus, e permanecemos juntos.
Contudo, nós não somos unidos. Nós nos separamos uns dos outros por assuntos pouco importantes. Algumas das questões que nos dividem são teológicas; outras temperamentais. Teologicamente, por exemplo, podemos discordar na relação exata entre soberania divina e responsabilidade humana, na "ordem" e ministério pastoral da igreja (se deve ser episcopal, presbiteriano ou independente) e até onde os crentes podem envolver-se numa “mistura” denominacional sem que se comprometam a si mesmos e a fé que professam; nas relações Igreja-Estado; em quem está qualificado para ser batizado e no volume de água a ser usado; em como interpretar profecia, em quais dons espirituais estão disponíveis hoje e quais são os mais importantes. Estas são algumas das questões nas quais crentes igualmente dedicados e bíblicos discordam entre si. São questões que os reformadores chamam de “adiaforia”, questões “indiferentes”. Desta forma, embora pretendemos continuar defendendo nossa própria convicção das Escrituras, em conformidade com a luz que nos tem sido dada, procuraremos não pressionar dogmaticamente a consciência de outros crentes, mas tratar a cada um com liberdade, em amor e respeito mútuo. Não se pode fazer coisa melhor do que mencionar o famoso epigrama atribuído a um certo Rupert Meldenius e citado por Richard Baxter. Em coisas essenciais, unidade; nas não-essenciais, liberdade; em todas as coisas, caridade.

Estamos, também, separados uns dos outros temporariamente.
Esquecemo-nos , às vezes , que Deus ama a diversidade e tem criado uma rica profusão de tipos humanos, temperamentos e personalidades. Além disso, o nosso temperamento tem mais influência na nossa teologia do que geralmente imaginamos ou admitimos. Embora a nossa compreensão da verdade bíblica dependa da iluminação do Espírito Santo, ela é inevitavelmente colorida pelo tipo de pessoa que somos, pela época na qual vivemos e pela cultura a que pertencemos. Alguns de nós, por disposição e formação, são mais intelectuais que emocionais; outros, mais emocionais que intelectuais. Repetindo, a disposição mental de muitos é conservadora (detestam mudanças e sentem-se ameaçados), enquanto outros são, por natureza, rebeldes à tradição (o que eles detestam é monotonia, considerando mudança como algo próprio de sua natureza). Questões como estas surgem de diferenças temperamentais básicas. Porém, não devemos permitir que o nosso temperamento nos controle. Pelo contrário, devemos deixar que as Escrituras julguem nossas inclinações naturais de temperamento. Caso contrário, acabaremos por perder o nosso equilíbrio cristão.

Cristianismo Equilibrado
John R. W. Stott

quarta-feira, 4 de março de 2009

O deus que não é Deus

Existe um deus que não é Deus. O único com força para enfrentar a Deus. Esse deus não vive em alguma dimensão cósmica ou ponto do universo. Seu oratório é a mente humana. Ele é um deus familiar, pois vive nos espelhos da alma. Mesquinho, cobra desempenhos impossíveis. Inclemente, castiga as inadequações dos fracos com fúria. Ofendido por uma pessoa, dizima gerações inteiras. Imprevisível, age com um humor indetectável.
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Existe um deus que não é Deus. Capaz de ofuscar o próprio Deus, misturou-se em todas as religiões. Sanguinário, exige sacrifício para estender a sua compaixão. Impassivo, privilegia os eleitos e condena o resto. Indiferente, descarta a prece da criança quando não se encaixa em seus propósitos. Distante, volta as costas para os miseráveis em nome da coerência.
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Existe um deus que não é Deus. É possível encontrá-lo nos paços sacerdotais, nas leis canônicas, nas teologias que o sistematizaram. Ele vingou na religião e a cúrias já mapearam as suas ações. Sem bondade, ele defende a virtude. Sem graça, faz apologia da verdade. Os cristão sabem que ele existe; já provaram o fel de sua justiça na Inquisição. O homem-bomba de hoje testemunha o seu furor para os muçulmanos. Ele aparece em cada campanha de oração pentecostal para mostrar como é difícil ganhar o seu favor.
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Existe um deus que não é Deus. Ele é uma divindade que não suporta ver Jesus almoçando com pecadores, bebendo vinho perto de mulheres suspeitas, elogiando pagãos ou prometendo o Paraíso para gatunos. Esse deus precisa desaparecer, pois é um ídolo malvado. E só com a sua morte nascerá o Salvador.
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Por Ricardo Gondim

domingo, 1 de março de 2009

Cliente ou garçom?


Certa feita, um servo de Deus entrou em um restaurante e fez um pedido à garçonete, que por sua vez, o atendeu muito mal . Vendo o servo de Deus que o pedido estava demorando muito, foi conferir o motivo da demora, e viu que a tal garçonete estava num bate-papo na cafeteira bem intertida que esqueceu de atender os outros clientes e de checar o pedido do servo de Deus.
Com uma certa veemência, o homem perguntou à garçonete quem era que pagava o seu salário, e com muita ironia ela respondeu que com certeza não era ele, porém, o homem retrucou dizendo que o salário dela e de outras garçonetes vinha de clientes como ele sim, e disse que costumava dar gorjetas maiores que o preço da refeição para garçonetes que lhe atendesse bem.
A partir desse momento, a garçonete começou a atendê-lo um pouco melhor, mas não o suficiente.

O objetivo desse exercício era simples: ele queria que a garçonete entendesse que o propósito do restaurante não era agradar a ela ou servir aos seus desejos , mas, sim, atender bem clientes como ele.

Numa estranha inversão de papéis dentro da mentalidade consumista, parece que decidimos que a igreja deve centralizar em nós, embora Deus - o cliente divino - continue com esta estranha idéia de que a igreja existe em função dele.

Quantas vezes e há quantos anos temos vestidos nossos “uniformes” e chegado à igreja para uma “reunião em volta da cafeteira” para falar uns com os outros a respeito de Deus enquanto ninguém se preocupa em atender a Ele mesmo - o cliente divino - em nosso meio?

Nossa atenção, afeição e esforços estão mais direcionados a nós mesmos do que a Ele.
Às vezes temo que Deus esteja sussurrando aos nossos ouvidos tapados: “desse jeito, seria melhor encerrar o culto” . Por quê? Agimos como se de fato não quiséssemos ser interrompidos por nosso cliente divino. Estamos ocupados demais, congratulando-nos uns com os outros por nossas histórias divertidas, sermões superficiais, solos talentosos e esplendidas apresentações de corais. Ficamos irritados por qualquer interrupção que possa nos afastar de nossas conversações ao redor da cafeteira.

Lembre-se que Deus é o cliente divino e nós apenas servos (garçons). Às vezes ou quase sempre, tentamos inverter essa situação.

Façamos uma auto-análise e vejamos se estamos sendo servos ou clientes
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Cristo x Religião


Fazendo uma de minhas releituras, encontrei um trecho interessante no livro "Maravilhosa Graça" (Philip Yancey).

Tolstoi (Grande ativista contra o legalismo) traçou um contraste entre o método de Jesus e o de todas as outras religiões:

"A prova da observância dos ensinamentos religiosos exteriores é se a nossa conduta se conforma ou não com seus decretos (como, por exemplo, guardar o sábado, dar o dízimo ou ser circuncidado). Tal conformidade realmente é possível.
A prova da observância dos ensinamentos de Cristo é nossa conscientização dos fracassos em atingir uma perfeição ideal. O grau em que nos aproximamos dessa perfeição não pode ser visto; tudo o que podemos ver é a extensão de nosso desvio.
Um homem que professa uma lei externa é como alguém de pé à luz de uma lanterna fixada em um poste. É uma luz que o envolve todo, mas não há mais nenhum lugar para ele andar. Um homem que professa os ensinamentos de Cristo é como um homem carregando uma lanterna: a luz está diante dele, sempre iluminando um pedaço de chão novo e sempre o encorajando a caminhar mais".

Em outras palavras, a prova da maturidade espiritual não é quanto você está "puro", mas, sim, a conscientização de sua impureza. Essa mesma conscientização abre a porta para a graça.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

A condenação dos falsos profetas


E veio a mim a palavra do SENHOR, dizendo: Filho do homem, profetiza contra os profetas de Israel que profetizam, e dize aos que só profetizam de seu coração: Ouvi a palavra do SENHOR: Assim diz o Senhor DEUS: Ai dos profetas loucos, que seguem o seu próprio espírito e que nada viram! Os teus profetas, ó Israel, são como raposas nos desertos. Não subistes às brechas, nem reparastes o muro para a casa de Israel, para estardes firmes na peleja no dia do SENHOR. Viram vaidade e adivinhação mentirosa os que dizem: O SENHOR disse; quando o SENHOR não os enviou; e fazem que se espere o cumprimento da palavra. Porventura não tivestes visão de vaidade, e não falastes adivinhação mentirosa, quando dissestes: O SENHOR diz, sendo que eu tal não falei? Portanto assim diz o Senhor DEUS: Como tendes falado vaidade, e visto a mentira, portanto eis que eu sou contra vós, diz o Senhor DEUS. E a minha mão será contra os profetas que vêem vaidade e que adivinham mentira; não estarão na congregação do meu povo, nem nos registros da casa de Israel se escreverão, nem entrarão na terra de Israel; e sabereis que eu sou o Senhor DEUS. Porquanto, sim, porquanto andam enganando o meu povo, dizendo: Paz, não havendo paz; e quando um edifica uma parede, eis que outros a cobrem com argamassa não temperada; dize aos que a cobrem com argamassa não temperada que ela cairá. Haverá uma grande pancada de chuva, e vós, ó pedras grandes de saraiva, caireis, e um vento tempestuoso a fenderá. Ora, eis que, caindo a parede, não vos dirão: Onde está a argamassa com que a cobristes? Portanto assim diz o Senhor DEUS: Fendê-la-ei no meu furor com vento tempestuoso, e chuva de inundar haverá na minha ira, e grandes pedras de saraiva na minha indignação, para a consumir. E derrubarei a parede que cobristes com argamassa não temperada, e darei com ela por terra, e o seu fundamento se descobrirá; assim cairá, e perecereis no meio dela, e sabereis que eu sou o SENHOR. Assim cumprirei o meu furor contra a parede, e contra os que a cobriram com argamassa não temperada; e vos direi: Já não há parede, nem existem os que a cobriram, os profetas de Israel, que profetizam acerca de Jerusalém, e vêem para ela visão de paz, não havendo paz, diz o Senhor DEUS.
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Ezequiel

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A verdadeira espiritualidade


Em recente pesquisa de opinião pública, a agência Zogby/Forbes ASAP perguntou aos entrevistados: Pelo que você mais gostaria de ser conheci­do? Por ser inteligente? Por ter boa aparência? Por ter senso de humor? A metade dos entrevistados assinalou uma resposta inesperada: Disseram que gostariam de ter a reputação de "serem autênticos". Em um mundo de informações distorcidas e propaganda enganosa, a geração pós-moderna procura desesperadamente algo verdadeiro e autêntico. Eles não levarão os cristãos a sério, a menos que nossas igrejas e organizações paraeclesiasticas demonstrem um estilo de vida autêntico, que sejam comunidades que exibam o caráter de Deus em suas relações e maneira de viver.
Técnicas publicitárias que meramente transmitem uma imagem po­dem trazer dinheiro, mas não são o meio de realizar uma obra espiritual genuína.

"A maneira [da igreja] de falar a verdade não deve estar alinhada com as técnicas publicitárias modernas", escreve Newbigin, "mas tem de ter a modéstia, a sobriedade e o realismo próprios a um discípulo de Jesus". A igreja é chamada para testemunhar do evangelho por demons­tração autêntica de amor e unidade.
Nos dias da igreja primitiva, o fato que mais impressionava as pessoas do império romano era a comunidade de amor que a Igreja testemunhava entre os crentes. "Vejam como eles amam uns aos outros", dizia-se. Em todos os tempos, a prova mais convincente a favor do evangelho não são palavras ou argumentos, mas a demonstração viva do caráter de Deus pelo amor dos cristãos uns pelos outros, expresso em palavras e ações. O evan­gelho não foi feito para ser "uma mensagem sem expressão corporal", escreve Newbigin. Foi feito para ser vivenciado em "uma congregação de homens e mulheres que crêem e vivem pelo evangelho", que mostram em suas relações a beleza do caráter de Deus.

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Por Nancy Pearcey
Verdade Absoluta

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Tenho que reconhecer


Tenho que reconhecer; foi na igreja que encontrei o maior número de pessoas que me decepcionaram. Porém, foi lá que me deparei com as pessoas mais humanas que já conheci.

Tenho que reconhecer; foi na igreja onde minha vida deu um salto de qualidade imensurável. Mas reconheço que essa mudança não se deu pelo fato da assiduidade no templo, mas pelo adorno do Espírito.

Tenho que reconhecer; existem muitos líderes eclesiásticos que envergonham o Evangelho de Cristo. Todavia, encontrei muitos mentores no segmento religioso que moldaram meu modus vivendi.

Tenho que reconhecer; a doutrina rígida de minha comunidade de fé muito me ajudou a firmar meus passos no início da caminhada. Entretanto, o fundamentalismo exacerbado de minha denominação, às vezes, asfixia.

Tenho que reconhecer; achar o ponto de equilíbrio da vida cristã não é algo fácil. Apesar disso, caminhar entre os aparentes paradoxos, sem sair da linha tênue, me faz experimentar esse ponto de equilíbrio.

Tenho que reconhecer; o número de pessoas que se decepcionam com Deus a partir do estudo da Teologia é considerável. Porém, é através dela que tenho me aproximado cada vez mais desse Ser transcendente.

Tenho que reconhecer; a Bíblia é o nosso verdadeiro manual de regra e prática. Todavia, não saberia viver sem os livros que falam a respeito dela.

Tenho que reconhecer; existe um corrupto que habita em mim tentando todos os dias me fazer regressar à lama. Mas dou graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor que nos purifica de todo pecado.

Tenho que reconhecer; escrevo por um impulso desenfreado de transformar meus pensamentos desajustados em palavras. Entretanto, um dia aprenderei a arte do vernáculo.

Enfim, tenho que reconhecer tantas coisas...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Happy Birthday


Neste dia 26/02/09 o Blog Reflexões do Reino estará completando 1 aninho de existência na web. Portanto, gostaria de agradecer a todos que contribuíram para que ultrapassássemos as 9.000 visitas com cerca de 120 postagens, tanto de minha autoria como de terceiros.

É bom registrar que existem milhões de sites e blogs com grande veiculação na web e minha intenção nunca foi angariar visitas ou competir com outros. Minha motivação sempre foi de anunciar reflexões que edifiquem o povo de Deus. Porém, com ajuda do Google analytics e do Histats conseguimos ter um controle de nossos visitantes.

Esse score que chegamos não é nada expressivo se compararmos com outros blogueiros, mas já é uma grande alegria chegarmos a esse marco.

Meu muito obrigado aos internautas, amigos e blogueiros que comentam, criticam, edificam, enfim, a todos os nossos leitores que de alguma forma nos auxiliam a permearmos a web de edificações cristãs.

Com carinho,
Junior

Carnaval - A festa da carne


O Carnaval Pagão é uma festa que tem sua origem nos cultos agrários da Grécia, em que se celebrava a fertilidade e produtividade do solo. Pisistráto, que governou Atenas entre 546 e 527 a.C., oficializou o culto a Dionísio, o deus grego equivalente ao deus romano Baco, das festas, do vinho, do lazer e do prazer, filho de Zeus e da princesa Semele, o único deus filho de uma mortal.
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O Carnaval Cristão passa a existir quando a Igreja Católica oficializa a festa, em 590 d.C., cedendo aos anseios populares. O que era considerado ocasião para a libertinagem passou a ser cerimônia oficial com certos limites estabelecidos para conter a carnalidade do povo: "se você não pode vencer seu inimigo, alie-se a ele". Mas em 1545, no Concílio de Trento, o Carnaval é reconhecido como uma manifestação popular de rua, e sua data é fixada em 1582 pelo Papa Gregório XIII, quando da transformação do Calendário Juliano para Gregoriano, sempre no 7º domingo que antecede ao domingo de Páscoa.
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No Brasil o carnaval chega em 1723, trazido pelos portugueses das Ilhas da Madeira, Açores e Cabo Verde, com o primeiro registro de baile em 1840, de onde, em 1855, surgiram os primeiros grandes clubes carnavalescos, precursores das atuais escolas de samba.
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A festa ganhou diferentes cores na celebração popular. Desde os blocos de rua, com suas manifestações pitorescas e despudoradas, passando pelos bailes de salão, com todos os seus ingredientes de gala, luxo e lixo, e também enchendo as ruas com trios elétricos e foliões de abadá, especialmente no Nordeste, e escolas de samba, mini óperas de rua, que desfilam pelos sambódromos cantando temas que incluem, por exemplo, uma homenagem a Tom Jobim, uma versão alternativa da história do Brasil ou a chamada de atenção à questão ecológica.
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Minha lembrança mais remota do carnaval me remete ao Rio de Janeiro, meados da década de 70, quando eu corria apavorado fugindo dos "bate bola", garotos mascarados que vinham em bandos batendo no chão uma espécie de bixiga de pele curtida que fazia um barulho tenebroso - uma versão tupiniquim do Halloween, com diferença de que não me lembro se eles pediam balas e doces ou apenas tocavam horror.
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Em todas as suas manifestações não há como deixar de relacionar o carnaval com a festa da carne, que o relaciona ao hedonismo puro, quando se busca o prazer do corpo acima e antes de tudo, e sugere uma "licença para pecar", especialmente os pecados sexuais, relacionados com lascívia e luxúria - a Prefeitura de Recife pretende distribuir a pílula do dia seguinte, um contraceptivo de emergência, usado após o "sexo casual", e que objetiva impedir ou retardar a liberação do óvulo pelo ovário, impossibilitando a fecundação, ou impedir a nidação, fixação do óvulo fecundado no útero (que polêmica, hein?!). Fica entendido por que depois vem a quarta-feira de cinzas, dia de jejum e abstinência, quando alguns cristãos de tradição católica romana rememoram sua mortalidade, usando as cinzas à luz do simbolismo bíblico para o arrependimento perante Deus. A quarta-feira de cinzas ocorre sempre um dia depois da terça-feira gorda, o último dia da temporada de Carnaval e também, ou justamente, o último dia em que se pode comer carne, vindo em seguida a Quaresma, quarenta dias de jejum em preparação para a Páscoa.
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A festa do carnaval, na cultura cristã católica ocidental, tem seu simbolismo claro: vamos todos morrer, e o melhor que temos a fazer antes disso é mergulhar de cabeça em todos os prazeres possíveis, que sabemos efêmeros e insuficientes para nos conduzir à plenitude da vida, possível apenas na ressurreição. Considerando, entretanto, que a carne é fraca, celebramos sua festa, mas não sem o cuidado de nos arrependermos, ainda que um arrependimento inconsistente, é verdade, apenas uma preparação para morrer bem, em vez de tomada de consciência para viver melhor.

A Rosa da libertação total


Certo dia, ao peregrinar pelas ruas da bela cidade do Salvador, fui abordado por um batalhão de fiéis de um desses movimentos religiosos neo-pentecostais, que me entregaram um folheto intitulado: “A ROSA DA LIBERTAÇÃO TOTAL”. Este enunciado foi suficiente para entender que se tratava de uma daquelas sessões da “Igreja Universal do Reino de Deus”, que tem sido especialista em criar “modismos religiosos” para atrair adeptos. O convite dizia assim: “VENHA RECEBER SUA ROSA UNGIDA PARA COLOCAR EM SUA CASA E ABENÇOAR TODA SUA FAMÍLIA”.

O convite é bastante apelativo e promete soluções imediatas para os problemas familiares. Aliás, um dos slogans mais divulgados pela Universal, “pare de sofrer”, tenta iludir as pessoas de que é possível uma vida terrena que não exista sofrimento. Jesus nunca prometeu para os seus seguidores uma vida fácil, sem cruz, mas pelo contrário, convidou-os a assumir a cruz e a entregar a vida por ele: “Se alguém que vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois aquele que quiser salvar a sua vida, a perderá, mas o que perder sua vida por causa de mim, a encontrará. De fato, que aproveitará ao homem ganhar o mundo inteiro mas arruinar sua vida? Ou o que poderá o homem dar em troca de sua vida?” (Mt 16, 24-26).
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A proposta de Jesus é diferente de tantos discursos religiosos, com base numa teologia da prosperidade, que coloca o sentido da felicidade no possuir as coisas terrenas, como sinais da benção de Deus.

Jesus é o único e sumamente bem necessário. Só Jesus pode libertar plenamente o homem e lhe proporcionar a benção. Não será simplesmente adquirindo uma "Rosa" que iremos ser libertos. Convém recordar neste momento aquela passagem bíblica que trata sobre o encontro de Paulo e Silas com o carcereiro. Este perguntou-lhes: “Senhores, que preciso fazer para ser salvo? Eles responderam: Crê no Senhor e serás salvo, tu e a tua casa” (At 16, 30-31).

Quando o homem passa a obedecer ao Senhor, a sua vida e de sua família já é uma benção e, não é necessário nenhum “instrumento mágico”, como uma “Rosa”. É permanecendo firmes na Palavra do Senhor, como discípulos, que encontraremos a Libertação. Jesus foi claro quando disse: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8, 31-32).

O que me chamou atenção ainda no folheto, que recebi dos membros da Igreja Universal, foi a citação bíblica que fundamentava o convite: “Disse Jesus: Eu sou a Rosa de Saron . Cantares (2:1)”.
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Não precisa ser nenhum especialista em Bíblia para perceber que a citação não está correta, pois não se trata de uma palavra de Jesus. O Livro dos Cânticos dos Cânticos (Cantares) faz parte da coleção dos livros do Antigo Testamento. Como tal, não menciona o nome de Jesus. Aliás, nesse livro, o próprio nome de Deus é mencionado uma única vez e de forma abreviada (8, 6).

A citação bíblica usada no folheto distribuído pelos membros da Igreja Universal está fora do seu contexto. Fazer uso de um texto bíblico fora do seu contexto (o todo do texto), com o intuito de apenas justificar as práticas religiosas de um grupo religioso é fazer mau uso das Escrituras Sagradas. A interpretação da Bíblia não pode ser personalista, como nos lembra o apóstolo Pedro: “Antes de mais nada, sabei isto: que nenhuma profecia da Escritura resulta de interpretação particular, pois que a profecia jamais veio por vontade humana, mas os homens impelidos pelo Espírito Santo falaram da parte de Deus” (1Pd 1, 20-21). A Bíblia deve ser interpretada com a iluminação do mesmo Espírito que a inspirou e na comunidade de fé.

Não deturpemos e nem manipulemos a Palavra do Senhor com meros interesses particulares!
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Por Frei Rufino Pinheiro

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Igreja Universal: do reino de Deus???


De tanto ouvir falar da Igreja Universal do Reino de Deus, decidi, juntamente com um confrade, fazer uma visita à “catedral da fé” ( templo maior da “Universal” nas regiões metropolitanas). Fui com o intuito de conhecer um pouco mais sobre este fenômeno religioso. Chegando ao templo, fomos bem acolhidos pelos obreiros (as), jovens, senhores e senhoras bem trajados, que me fizeram lembrar os funcionários do Shoping Center; recebemos a oração ungida do salmo 91 para que colocássemos no local da nossa enfermidade. Envolvidos por uma música alegre, em rítimo do axé baiano, fomos convidados, após uma oração de cura e libertação, a fazer uma oferta.

A “sessão” (nomenclatura própria das religiões afro-brasileiras) tinha a seguinte estrutura: Música – oração – oferta. A cada oração as pessoas eram motivadas a fazer uma oferta em dinheiro (não menos de dez reais). Segundo o “pastor” só receberia a bênção quem desse o seu tudo. Não tínhamos dinheiro, mas os que tinham, depositavam no altar ou sobre o “pastor” (uma das cenas mais fortes que presenciamos. O “pastor” usando uma capa preta. Enquanto orava as pessoas colocavam dinheiro sobre ele). Testemunhamos pessoas pobres que depositavam todo o seu dinheiro com a esperança, prometida pelo “pastor” dirigente daquela sessão, de que Deus retribuiria em dobro. Ao presenciar esta “cena”, (uso a palavra cena porque parece um teatro) fiquei a pensar: Onde estou? Numa igreja ou numa casa de comércio? Quem são esses homens que prometem a prosperidade imediata para essas pessoas, são de fato pastores? Mas, o modelo de pastor proposto por Cristo é este?

Para esclarecer esses questionamentos recordei-me de duas passagens bíblicas. Uma referente ao templo e outra relacionada figura do pastor. A primeira é aquela que Jesus diz: “Tirem isso daqui! Não transformem a casa de meu Pai num mercado” (Jo 2, 16). A outra passagem bíblica é de Jo 10, 12-13, onde está escrito: “O mercenário que não é pastor, e as ovelhas não são suas, quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas. O mercenário foge porque trabalha só por dinheiro e não se importa com as ovelhas”. Sem comentários. Já diz o ditado: “Para um bom entendedor, meia palavra basta”.

Quanto à teologia pregada naquela sessão da Igreja “Universal” merece comentário. Percebi que o “pastor” tinha pouca formação teológica, pois não sabia nem se quer qual era a passagem bíblica do Bom Pastor. Em outro momento, chegou a fazer a seguinte afirmação: “Não confie em quem está ao seu lado. Todos querem seu mal, inclusive as pessoas de sua casa, de sua família”. Em algo o pastor tinha razão: não podia confiar nele, pois era um dos que estavam mais próximo de mim. As palavras proferidas pelo “pastor” são portadoras de sentimentos de desconfiança, tão presentes nos dias atuais. Outra pregação do “pastor” deixou-me inquieto. Aos gritos, dizia: “Deus, você tem que fazer o milagre!”. Tais palavras ressoadas tocaram meu senso de humor, levando-me a sorrir interiormente. Como o “pastor” era cearense (ceará, estado marcado pela presença de grandes humoristas) pensei: quem sabe não é uma anedota. Estava errado. Por várias vezes repetiu a mesma expressão.

Penso que a mensagem do “pastor” não condiz com a teologia cristã. Esta reconhece que tudo o que recebemos é dom de Deus. Deus não é obrigado a realizar aquilo que não é de sua vontade. Pensa como o “pastor” quem acredita num deus manipulável. Não podemos fazer de Deus um “ídolo”, objeto de nossos caprichos. Não foi assim que Jesus nos ensinou a dirigir orações ao Pai. Pelo contrário, Jesus diz que deveríamos orar assim: “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6, 10b). Jesus também rezou ao Pai diferente da oração daquele “pastor” da universal: “Meu Pai, se é possível, afasta-se de mim este cálice. Contudo, não seja feito como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26, 39b).

Quando lembro-me da oração proferida pelo “pastor”, não posso deixar de concordar com aquilo que disseram os apóstolos Paulo: “Nós não sabemos orar como convém” (Rm 8, 26) e Tiago: “E vocês pedem, mas não recebem, porque pedem mal, com intenção de gastar em seus prazeres. Idólatras! Vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo é inimigo de Deus” (4, 3-4). Eis um questionamento: Em que acredita a Igreja Universal “Teós” ou “mamon”? É no Deus cristão ou no deus produzido pelo capitalismo neo- liberal?

A cobiça de possuir é uma idolatria (Cl 3, 5) que precisa ser exaurida de toda e qualquer prática religiosa disfarçada de cristianismo. A piedade cristã coloca Deus acima de todas as coisas passageiras deste mundo. Vejamos o que aconselhou o apóstolo Paulo ao bispo Timóteo: “É isso que você deve ensinar e recomendar. Pois, quem ensina coisas diferentes, que não concordam com as sãs palavras de nosso Senhor Jesus Cristo e com o ensinamento conforme a piedade, é cego, não entende nada, é doente à procura de discussões e brigas de palavras... Eles supõem que a piedade é fonte de lucro. De fato, a piedade é grande fonte de lucro, mas para quem sabe se contentar. Pois não trouxemos nada para o mundo, e dele nada podemos levar. Se temos o que comer e com que nos vestir, fiquemos contentes com isso. Aqueles, porém, que querem tornar-se ricos, caem na armadilha da tentação e em muitos desejos insensatos e perniciosos, que fazem os homens afundarem na ruína e perdição. Porque a raiz de todos os males é o amor ao dinheiro. Por causa dessa ânsia de dinheiro, alguns se afastaram da fé e afligem a si mesmos com muitos tormentos” (1Tm 6, 2b-4a.6-10).

Caro amigo (a), a experiência de ter assistido a uma sessão da IURD levou-me a seguinte conclusão: “Sou muito feliz por ser Católico”.Concluo este testemunho pedindo ao Senhor que derrame suas bênçãos sobre todos os irmãos da Igreja Universal do Reino de Deus para que possam conhecê-Lo tal como Ele é.
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Por Frei Rufino Pinheiro

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Sobre Teologia


Todos me aconselharam a não lhes dizer o que vou dizer neste último livro. Afirmam: "O leitor comum não quer saber de Teologia; dê-lhe somente a religião simples e prática." Rejeitei o conselho. Não acho que o leitor comum seja um tolo. Teologia significa "a Ciência de Deus", e creio que todo homem que pensa sobre Deus gostaria de ter sobre ele a noção mais clara e mais precisa possível. Vocês não são crianças: por que, então, lhes tratar como tal?
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Em certo sentido, até compreendo por que algumas pessoas se sentem desconcertadas ou até incomodadas pela Teologia. Lembro-me de certa ocasião em que dava uma palestra para os pilotos da R.A.F. e um oficial velho e rijo levantou-se e disse: "Nada disso tem serventia para mim. Mas saiba que também sou um homem religioso. Sei que existe um Deus. Sozinho no deserto, à noite, já senti a presença dele: o tremendo mistério. E é exatamente por isso que não acredito em todas essas fórmulas e esses dogmas a respeito dele. Para qualquer um que tenha conhecido a realidade, todos eles parecem mesquinhos, pedantes e irreais."
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Ora, num sentido, até concordo com esse homem. Creio que ele provavelmente teve uma experiência real de Deus no deserto. Quando se voltou da experiência para o credo cristão, acho que realmente passou de algo real para algo menos real. Da mesma maneira, um homem que já viu o Atlântico da praia e depois olha um mapa do Atlântico também está trocando a coisa real pela menos real: troca as ondas de verdade por um pedaço de papel colorido. Mas é exatamente essa a questão.
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Admito que o mapa não passa de uma folha de papel colorido, mas há duas coisas que devemos
lembrar a seu respeito. Em primeiro lugar, ele se baseia nas experiências de centenas ou milhares de pessoas que navegaram pelas águas do verdadeiro oceano Atlântico. Dessa forma, tem por trás de si uma massa de informações tão reais quanto a que se pode ter da beira da praia; com a diferença que, enquanto a sua é um único relance, o mapa abarca e colige todas as experiências de diversas pessoas.
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Em segundo lugar, se você quer ir para algum lugar, o mapa é absolutamente necessário. Enquanto você se contentar com caminhadas à beira da praia, seus vislumbres serão mais divertidos que o exame do mapa; mas o mapa será de mais valia que uma caminhada pela praia se você quiser ir para os Estados Unidos.
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A Teologia é como o mapa. O simples ato de aprender e pensar sobre as doutrinas cristãs, considerado em si mesmo, é sem dúvida menos real e menos instigante do que o tipo de experiência que meu amigo teve no deserto. As doutrinas não são Deus, são como um mapa. Esse mapa, porém, é baseado nas experiências de centenas de pessoas que realmente tiveram contato com Deus — experiências diante das quais os pequenos frêmitos e sentimentos piedosos que você e eu podemos ter não passam de coisas elementares e bastante confusas. Além disso, se você quiser progredir, precisará desse mapa. Note que o que aconteceu com aquele homem no deserto pode ter sido real e certamente foi emocionante, mas não deu em nada. Não levou a lugar nenhum. Não há nada que possamos fazer.
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Na verdade, é justamente por isso que uma religiosidade vaga — sentir Deus na natureza e assim por diante — é tão atraente. Ela é toda baseada em sensações e não dá trabalho algum: é como mirar as ondas da praia. Você jamais alcançará o Novo Mundo simplesmente estudando o Atlântico dessa maneira, e jamais alcançará a vida eterna sentindo a presença de Deus nas flores ou na música. Também não chegará a lugar algum se ficar examinando os mapas sem fazer-se ao mar. E, se fizer-se ao mar sem um mapa, não estará seguro.
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Em outras palavras, a Teologia é uma questão prática, especialmente hoje em dia. No passado, quando havia menos instrução formal e menos discussões, talvez fosse possível passar com algumas poucas idéias simples sobre Deus. Hoje não é mais assim. Todo mundo lê, todo mundo presta atenção a discussões. Conseqüentemente, se você não der atenção à Teologia, isso não significa que não terá idéia alguma sobre Deus. Significa que terá, isto sim, uma porção de idéias erradas — idéias más, confusas, obsoletas. A imensa maioria das idéias que são disseminadas como novidades hoje em dia são as que os verdadeiros teólogos testaram vários séculos atrás e rejeitaram. Acreditar na religião popular moderna da Inglaterra é a mesma coisa que acreditar que a Terra é plana — um retrocesso.
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Pois, na prática, a idéia popular de cristianismo é simplesmente esta: Jesus Cristo foi um grande mestre da moral e, se seguíssemos seus conselhos, conseguiríamos estabelecer uma ordem social melhor e evitar uma nova guerra. Saiba que isso tem seu fundo de verdade. Mas é muito menos que a verdade integral do cristianismo, e na realidade não tem importância prática alguma.
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E verdade que, se seguíssemos os conselhos de Cristo, viveríamos em breve num mundo mais feliz. Nem precisaríamos ir tão longe: se déssemos ouvidos ao que disseram Platão, Aristóteles ou Confúcio, estaríamos muito melhor do que estamos. E daí? Nunca seguimos os conselhos dos grandes mestres. Por que começaríamos a segui-los agora? E por que estaríamos mais dispostos a ouvir a Cristo que aos outros? Porque ele é o melhor mestre da moral? Com isso, é ainda menos provável que o sigamos. Se não conseguimos aprender nem as lições elementares, como passaremos às mais adiantadas? Se o cristianismo não passa de mais um bocado de conselhos, ele não tem importância nenhuma. Não nos faltaram bons conselhos nos últimos quatro mil anos. Um pouquinho mais não faz diferença.
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No entanto, logo que nos debruçamos sobre os verdadeiros escritos cristãos, vemos que eles falam de algo inteiramente diferente dessa religião popular. Dizem que Cristo é o Filho de Deus (o que quer que isso signifique). Dizem que os que nele depositam sua confiança podem também tornar-se filhos de Deus (o que quer que isso signifique). E dizem ainda que sua morte nos salvou de nossos pecados (o que quer que isso signifique).
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Não adianta reclamar que essas afirmações são difíceis. O cristianismo pretende falar-nos de um outro mundo, de algo que está por trás do mundo que podemos ver, ouvir e tocar. Você pode até pensar que essa pretensão é falsa, mas, se for verdadeira, o que o cristianismo nos diz será necessariamente difícil — pelo menos tão difícil quanto a Física moderna, e pela mesma razão.
O ponto mais chocante do cristianismo é a afirmação de que, quando nos ligamos a Cristo, podemos nos tornar "filhos de Deus". Alguém pergunta: "Mas já não somos filhos de Deus? A paternidade de Deus não é uma das idéias principais do cristianismo?" Bem, em certo sentido não há dúvida de que já somos filhos de Deus. Ou seja, Deus nos trouxe à existência, nos ama e cuida de nós, como um pai. Mas, quando a Bíblia fala que podemos "nos tornar" filhos de Deus, obviamente quer dar a entender algo diferente. E isso nos leva para o próprio coração da Teologia.
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Cristianismo puro e simples
C. S. Lewis

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