segunda-feira, 26 de maio de 2008

A reclamação do profeta

Todos nós temos um senso interno de justiça. Se um pai joga sua própria filha da janela do 6º andar e continua a viver como se nada tivesse acontecido, outros pais certamente se revoltariam e desejariam dar cabo da vida desse pai insano.
Podemos discordar quanto ao que é justo ou não, mas todos nos pautamos por algum tipo de código interior.
E, para ser franco, a maior parte do tempo, a vida parece injusta. Que criança "merece" ser jogada da janela do 6º andar pelo próprio pai e pela madrasta? Que criança “merece” crescer nas favelas de Calcutá, Rio de Janeiro ou Bronx? Por que pessoas como Adolf Hitler, Joseph Stalin e Saddam Hussein conseguem se safar depois de oprimir milhões de pessoas? Por que pessoas tão meigas e gentis morrem no vigor de sua juventude, enquanto outras, vivem até uma velhice insuportável? Todos nós fazemos versões diferentes dessas perguntas. Já o profeta Habacuque as fez direto para Deus, e recebeu uma resposta sincera. Habacuque não mede suas palavras. Exige que o Senhor explique por que Ele não reage diante da injustiça, da violência e do mal que o profeta vê a sua volta. Deus responde com a mesma mensagem que Ele transmitiu a Jeremias, dizendo que enviará os babilônios para punir Judá. Acontece que tais palavras de nada servem para confortar o profeta, pois os babilônios são um povo selvagem e sem piedade. Não é injusto usar uma nação ainda pior para castigar Judá? O livro de Habacuque não oferece uma solução para o problema do mal. No entanto, as conversas do profeta com seu Deus convencem-no de uma certeza: o Senhor não perdeu o controle. Como Deus de justiça, Ele não pode deixar o mal vencer. Primeiro trará os babilônios conforme as regras que eles próprios estabeleceram. Então, mais tarde, intervirá com grande força, abalando os fundamentos da terra até que nenhum sinal de injustiça permaneça. "Mas a terra se encherá do conhecimento da glória do Senhor, como as águas enchem o mar", Ele promete a Habacuque. Um vislumbre dessa glória poderosa muda a atitude do profeta de indignação para alegria. No curso do seu debate com Deus, Habacuque aprende lições sobre fé, expressas de maneira maravilhosa que seu livro, que começa com uma reclamação, termina com um dos mais belos cânticos encontrado na Bíblia.

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Cosmovisão

É interessante como ao longo de nossa peregrinação espiritual nos deparamos com diversas formas de ver o mundo.
Quando nos convertemos, recebemos um legado de informações que regem a subcultura evangélica brasileira, chamada de "doutrina". Aprendemos a interpretar a Bíblia em sua literalidade, e por instinto legalista e fundamentalista, julgamos tudo e a todos, por acreditar que agora nossos olhos foram abertos e não somos mais escravos do pecado. É incutido em nossa mente, que somos diferenciados, privilegiados e até mesmo, filhos prediletos; e aí percebemos que nossos olhos ainda não foram abertos como pensávamos.
Estou experimentando uma nova fase. A doutrina rígida que nos foi passada pela denominação tradicional em que faço parte, não tem mais aquela primazia em minha vida como no início da caminhada.
Suplico a ti, caro leitor, que não se escandalize devido ao teor dos meus escritos. Simplesmente, aprendi que existe uma nova maneira de ver o mundo (Cosmovisão). Falamos tanto da Graça, mas parece-me que não entendemos seu real significado. Aprendi que Graça não é só um conceito teológico, mas é para ser recebida e vivida. Aprendi que o céu é pra todos, e que principalmente, Jesus não é só Jesus dos crentes, mas Jesus de todos. É claro que existem algumas condições para se chegar ao céu, mas ao contrário, monopolizamos Jesus dentro de quatro paredes, estigmatizamos essas condições e nos tornamos etnocentristas (crença na superioridade do povo a que se pertence, acompanhada de sentimento de menosprezo por padrões culturais que se afastam da posição cultural do observador).
Faço coro com o Pr. Ed quando diz:
"Uma das coisas mais estúpidas que já acreditei em termos de religião foi que a composição da população do céu podia ser mensurada pelo número de pessoas que dissessem “sim” a um apelo de conversão a Jesus Cristo feito nas bases da tradição do cristianismo protestante evangélico anglo-americano. Traduzindo: se você acredita que irão para o céu somente as pessoas que aceitam a Jesus como salvador depois de ouvir o evangelho pregado a partir da cultura anglo-americana, então você está em apuros: o seu céu é pequeno demais; o seu Deus é pequeno demais; o seu Cristo é pequeno demais; o seu evangelho é pequeno demais; o seu Espírito Santo é pequeno demais; o seu universo de comunhão é pequeno demais; seu projeto existencial é pequeno demais; sua peregrinação espiritual é pequena demais. É urgente que se articule uma outra maneira de convocar pessoas para que se coloquem a caminho do céu. Uma convocação que considere que “nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade do meu Pai que está nos céus” – Palavras de Jesus. Uma convocação que re-signifique o conceito de céu, que deve deixar de ser um lugar geográfico em outro mundo para onde se vai após a morte, para significar uma dimensão de relacionamento com o Deus Eterno para a experiência contínua do processo de humanização: estar em Cristo e ser como Cristo. Com isso quero dizer que o convite para aceitar Jesus como salvador como credencial para ir para o céu não é a melhor convocação. A melhor convocação é um chamado para se tornar uma outra pessoa. A peregrinação espiritual cristã não é uma migração de um lugar para outro, mas de um estado de ser para outro. Nosso destino não é o céu. Nosso destino é Cristo. E tenho certeza de que muita gente vai chegar lá mesmo sem nunca ter ouvido o plano de salvação desenvolvido pelos teólogos sistemáticos anglo-americanos".

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Até quando?

Como tem sido difícil assistir um culto pentecostal nas igrejas atuais.
Confesso, saí frustrado do último que fui.
As raízes pentecostais não tem nada a ver com isso que chamamos hoje de manifestações do Espírito.
Sei que corro o risco de ser chamado de frio, de intelectual e outros nomes mais. Portanto, não me renderei a esse pseudoevangelho pregado nos púlpitos da igreja moderna.
Como pode alguém ir ao um “culto de poder” e sair pior do que entrou? Que tanto poder é esse que é “liberado” pelos evangelistas e pastores, que não tem eficácia na vida existencial deles próprios?
Que tanta “unção” é essa que é exalada de seus paletós e não transforma a vida dos fiéis?
Até quando veremos os manipuladores de auditórios manobrando as massas para um falso evangelho?
Até quando vamos chamar de “cristãos” esses falsos líderes? Eles inventaram outra religião. Abandonaram o cristianismo. Não falam da cruz de Cristo e da regeneração do Espírito Santo como solução para toda e qualquer escravidão espiritual. Não falam do discipulado de Jesus Cristo como compromisso com o Reino de Deus, o que exige arrependimento e submissão absoluta ao Rei Eterno, o que implica mudança de vida e serviço abnegado.
Continuo a peregrinar com minhas incertezas, sabendo que o Deus da igreja dará um escape aos seus pequeninos que anseiam viver humildemente, praticando a justiça e amando a misericórdia.
Continuo a crer nas manifestações do Espírito Santo na vida do cristão; continuo a crer na transformação do homem caído; e continuo a ter esperança que a nossa missão é manifestar, aqui e agora, a maior densidade possível do Reino de Deus, que será consumado ali e além.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Teodicéia

Hoje, iniciei uma peregrinação para tentar entender “Onde está Deus quando chega a dor?”. Na verdade, este é o título do livro de Philip Yancey que começo a ler. O título por si só já é muito intrigante, e poderíamos logo de cara matar esta questão e responder esta pergunta usando um grande clichê evangélico: “Deus está contigo”.
Portanto, como não consigo engolir estes jargões, por mais que acredite que Deus sempre está ao nosso lado, usarei as palavras de Ed René Kivitz para tentar explicar a questão do sofrimento humano.
Eis aí o que ele diz:
“Acho que Epicuro foi quem formulou a questão a respeito da relação entre a onipotência e a bondade de Deus. A coisa é mais ou menos assim: se Deus existe, ele é todo poderoso e é bom, pois não fosse todo-poderoso, não seria Deus, e não fosse bom, não seria digno de ser Deus. Mas se Deus é todo-poderoso e bom, então como explicar tanto sofrimento no mundo? Caso Deus seja todo-poderoso, então ele pode evitar o sofrimento, e se não o faz, é porque não é bom, e nesse caso, não é digno de ser Deus. Mas caso seja bom e queira evitar o sofrimento, e não o faz porque não consegue, então ele não é todo-poderoso, e nesse caso, também não é Deus. Escrevendo sobre a Tsunami que abalou a Ásia, o Frei Leonardo Boff resume: "Se Deus é onipotente, pode tudo. Se pode tudo porque não evitou o maremoto? Se não o evitou, é sinal de que ou não é onipotente ou não é bom". Considerando, portanto, que não é possível que Deus seja ao mesmo tempo bom e todo-poderoso, a lógica é que Deus é uma impossibilidade filosófica, ou se preferir, a idéia de Deus não faz sentido, e o melhor que temos a fazer é admitir que Deus não existe. Parece que estamos diante de um dilema insolúvel. Mas Einstein nos deu uma dica preciosa. Disse que quando chegamos a um "problema insolúvel", devemos mudar o paradigma de pensamento que o criou. O paradigma de pensamento que considera o binômio "onipotência/bondade" como ponto de partida para pensar o caráter de Deus nos deixa em apuros. Existiria, entretanto, outro paradigma de pensamento? Será que as palavras "onipotência" e "bondade" são as que melhor resumem o dilema de Deus diante do mal e do sofrimento do inocente? Há outras palavras que podem ser colocadas neste quebra-cabeça? Este problema foi enfrentado por São Paulo, apóstolo, em seu debate com os filósofos gregos de seu tempo. A mensagem cristã era muito simples: Deus veio ao mundo e morreu crucificado. Pior do que isso: Deus havia sido crucificado num "jogo de empurra" entre judeus e romanos, isto é, diferentemente dos outros deuses, o Deus dos cristãos havia sido morto não por deuses mais poderosos, mas por homens. Sendo Deus, jamais poderia ser morto por mãos humanas, e sendo o Deus onipotente, jamais poderia nem mesmo ser morto. Paulo, apóstolo, estava, portanto, diante de um dilema semelhante ao proposto por Epicuro: Deus era uma impossibilidade filosófica. Foi então que os apóstolos surgiram com uma resposta tão genial que os cristãos acreditam que foi soprada pelo Espírito Santo: antes de vir ao mundo ao encontro dos homens, Deus se esvaziou da sua onipotência, isto é, abriu mão do exercício de sua onipotência, e por amor, deixou-se matar por eles. (Eu disse que "Deus abriu mão do exercício de sua onipotência", bem diferente de "Deus abriu mão de sua onipotência"). O apóstolo Paulo admitia que não era possível pensar em Deus sem considerar o binômio bondade/onipotência. Optou pela palavra amor, assim como o apóstolo João, que afirmou "Deus é amor", e afirmou que Jesus de Nazaré foi Deus encarnado na forma de Amor, e não Deus encarnado na forma de Onipotência. Isso faz todo o sentido. Um Deus que viesse ao encontro das pessoas em trajes onipotentes chegaria para se impor e reivindicar obediência irrestrita, impressionando pela sua majestade e força sem iguais. Jung Mo Sung adverte que "a contrapartida do poder é a obediência, enquanto a contrapartida do amor é a liberdade". Também assim pensou o apóstolo Paulo, ao afirmar que o que constrange as pessoas a viver para Deus é o amor de Deus (demonstrado na morte de Jesus na cruz), e nunca o poder de Deus. Na verdade, "Deus não tinha escolha". Ao decidir criar o ser humano à sua imagem e semelhança, deveria cria-lo livre. Desejando um relacionamento com o ser humano, deveria dar ao ser humano a liberdade de responder voluntariamente ao seu amor, sob pena de ser um tirano que arrasta para sua alcova uma donzela contrariada. Somente o amor resolveria esta equação, pois somente o amor dá liberdade para que o outro seja livre, inclusive para rejeitar o amor que se lhe quer dar. Ricardo Gondim me introduziu ao pensamento de Comte-Sponville. Este ateu confesso discorre a respeito do amor divino como poucos que já li. Acredita que o amor divino é um ato de diminuição, uma fraqueza, uma renúncia. Usa os argumentos de Simone Weil: "a criação é da parte de Deus um ato não de expansão de si, mas de retirada, de renúncia. Deus e todas as criaturas é menos do que Deus sozinho. Deus aceitou essa diminuição. Esvaziou de si uma parte do ser. Esvaziou-se já nesse ato de sua divindade. É por isso que João diz que o Cordeiro foi degolado já na constituição do mundo. Deus permitiu que existissem coisas diferentes Dele e valendo infinitamente menos que Ele. Pelo ato criador negou a si mesmo, como Cristo nos prescreveu nos negarmos a nós mesmos. Deus negou-se em nosso favor para nos dar a possibilidade de nos negar por Ele. As religiões que conceberam essa renúncia, essa distância voluntária, esse apagamento voluntário de Deus, sua ausência aparente e sua presença secreta aqui embaixo, essas religiões são a verdadeira religião, a tradução em diferentes línguas da grande Revelação. As religiões que representam a divindade como comandando em toda parte onde tenha o poder de fazê-lo são falsas. Mesmo que monoteístas, são idólatras". Você já imagina onde quero chegar. Isso mesmo, entre a onipotência e a bondade de Deus existe a liberdade do homem, e o compromisso de Deus em respeitar esta liberdade. Isso ajuda a entender porque existe tanto sofrimento no mundo. O mal não procede de Deus e não é promovido ou determinado por Deus. O mal é conseqüência inevitável da liberdade humana, que teima em dar as costas para Deus e tentar fazer o mundo acontecer à sua própria maneira. Diante do mal e do sofrimento, o Deus com os homens, encarnado em Amor, também sofre, se compadece, tem suas entranhas movidas de compaixão.Mas você poderia perguntar, porque razão Deus não acaba com o mal. Isso é simples: Deus não acaba com o mal porque o mal não existe. Marilena Chauí diz que "o mal é o pecado, isto é, a transgressão da lei divina que o primeiro homem e a primeira mulher praticaram. Sua punição foi o surgimento de outros males: morte, doença, dor, fome, sede, frio, tristeza, ódio, ambição, luxúria, gula, preguiça, avareza. Pelo mal, a criatura afasta-se de Deus, perde a presença divina e a bondade original que possuía. O mal, portanto, não é uma força positiva da mesma realidade que o bem, mas é pura ausência de bem, pura privação do bem, negatividade, fraqueza. Assim a treva não é algo positivo, mas simples ausência da luz, assim também o mal é pura ausência do bem. Há um só Deus, e o mal é estar longe e privado dele, pois ele é o bem e o único bem". Em outras palavras, o mal não existe, o que existe é o malvado, aquele que faz surgir o mal porque se afasta de Deus, o supremo e único bem. Ariovaldo Ramos resumiu isso ao afirmar que "para acabar com o mal, Deus teria que acabar com o malvado". Mas, sendo amor, entre acabar com o malvado e redimir o malvado, Deus escolheu sofrer enquanto redime, para não negar a si mesmo destruindo o objeto do seu amor. Por esta razão Deus "se diminui", esvazia-se de sua onipotência, e se relaciona com a humanidade com base no amor, fazendo nascer o sol sobre justos e injustos, e mostrando sua bondade, dando chuva do céu e colheitas no tempo certo, concedendo sustento com fartura e um coração cheio de alegria a todos os homens”.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Parabéns mamãe

11 de abril. Aniversário de minha mãe. 54 anos de vida, de luta, de uma história. Cheio de percalços é bem verdade, mas quem não tem luta não pode ser chamada de vencedora.
Queria poder reproduzir a história dessa vencedora, mas levaria muito tempo, teria que voltar 50 anos e lembrar da roça, da infância sobre rédeas, da família Alves Nascimento chegando ao Rio de Janeiro...a estrada é longa.
Prefiro me reportar somente até 1979, quando nasce um meninão – orgulho da mamãe.
Ali começa a minha história; tua história; nossa história.
Costumo dizer que ela é a melhor mãe do mundo, mas todos dizem isso a respeito das suas. Portanto, já ouvi muito amigo meu dizer que a minha mãe era melhor do que a deles. É mole.
Quem conhece a vida dessa mulher sabe o quanto ela foi mãe pra muita gente. Acho que já tive muitos irmãos ao longo da vida; pessoas que ela estendia a mão amiga e de lambuja ainda dava um teto para abrigá-los.
A vida é assim, cheia de improvisos e paradoxos. Portanto, Deus honra aqueles de bom coração.
A vida lhe reservou um casamento não muito feliz, e separação sempre é muito difícil; como diz o ditado: "há males que vem para o bem". Ou como diz a Bíblia: Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus...
Me deu tudo que uma criança e um adolescente poderia ter. Fui mimado é verdade, mas não troco esse mimo por nada neste mundo. Me ensinou a viver; me discipulou para vida; pena que quase estraguei tudo na minha juventude rebelde. Lembro-me das madrugadas a fio, me aguardando chegar das baladas. Como fui um tolo. Mas quando a Graça chega, superabunda toda e qualquer transgressão.
Dou graças à Deus pela vida de minha mãe, que sempre foi um pai e uma mãe; suportou os dias maus para poder me proporcionar o melhor, e me formar um homem de caráter.
Existe um jargão que diz: “Não existem palavras para expressar o que sinto por você”. Mas pensando na atitude de Deus em se revelar ao homem através da palavra escrita (Bíblia), quero tentar refletir meus pensamentos em palavras, para que na ausência das minhas palavras, eu possa expressá-las através de atitudes. Sei que estou muito longe de ser um filho exemplar, mas a Graça de Deus foi tão abundante sobre minha vida, que me deu uma mãe que simplesmente é a melhor do mundo.
Hoje é seu dia. E Deus ainda vai lhe reservar dias melhores.
Desejo-lhe dias de paz e com muito amor de Cristo. E que essa nova união venha trazer dias de intensa felicidade.
Beijos do seu filho predileto que tanto te ama.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Senhor, ensina-nos a orar

Por Ricardo Gondim

Orar poderia ser definido como uma arte? A arte de convencer? Seria, então, a mais nobre de todas as artes, pois persuade a Deus. Será que uma reza tem força para alterar o curso previamente definido pela Providência? Mas, como o desfiar de um rosário pode mudar o curso da história?
Morro de medo de começar a fazer esse tipo de pergunta; parece um fio solto que a gente vai puxando, puxando, até que não sobra mais nada da blusa. Na verdade, sabemos quase nada sobre as ladainhas, sobre as intercessões, sobre os rogos, sobre as súplicas, sobre as petições, sobre as correntes e as campanhas de oração.
Além de pastor e conferencista, sinto-me responsável, como pai e avô, de ensinar valores espirituais (transcendentais) à minha prole. Os tempos são difíceis, nunca se trivializou tanto o assunto da oração nessas "igrejas-empresas" que propagandeiam suas “orações fortes”; nunca tantos charlatões apregoaram a capacidade de saberem como “mover o braço de Deus". Mesmo assim, teimo em crer. Até contra as racionalizações positivistas, os ceticismos humanistas e as dúvidas cruéis, uma voz insiste em gritar dentro de meu peito: - Creia, é possível falar com Deus!
Confesso que sou um noviço nos protocolos de frequentar o Santo dos Santos. Minhas certezas são frágeis e carregadas de imprecisão. Identifico-me com os primeiros seguidores de Jesus de Nazaré e repito: “Senhor, ensina-me a orar”.
Não ofereço respostas, não indico caminhos rumo ao trono de Deus. Continuo como um daqueles discípulos, mais perdido do que centrado. Nas vezes em que precisei falar com o Todo-Poderoso, fui um fiasco. Consigo despejar palavras, gritar ou cantar louvores, manter minhas preces dentro da ortodoxia protestante, mas continuo inapto, sem grandes tratados de como se dirigir a Deus.
Contudo, às apalpadelas, faço minhas invocações ao Senhor, e nutro algumas intuições como balizas que me orientam nos exercícios espirituais.
Procuro fazer da graça o chão da minha devocional. Muito de minha adoração consiste em procurar escapar da armadilha de repetir esta palavra (graça) como um simples conceito teológico. A graça precisa manter-se como minha premissa relacional: Deus é sempre simpático a mim. Em todo culto, procuro trazer à lembrança que antes de qualquer manifestação piedosa, de arrependimentos com oblações, de flagelações e de rasgar de vestes, Deus me quer bem. Sua graça me poupa de implorar-lhe que troque de semblante; Deus não é antipático. Minha incapacidade de cumprir a lei não provoca sua ira. Não existe nada em minha conduta anterior que predisponha Deus contra mim. A graça me ajuda a dialogar com o Eterno sem depender da minha pureza.
Procuro manter em mente que Jesus de Nazaré revelou Deus como um Pai bom e misericordioso. Não oro como se Ele fosse uma energia ou um princípio metafísico. Porque procuro perceber que Deus me trata como um pai, não preciso arengar, bater o pé, para ganhar o seu favor. As circunstâncias da vida, com suas contingências, incidentes, sofrimentos, desditas, fadigas, fascínios, benevolências e alegrias, não possuem uma conexão direta com o desprezo ou amor de Deus. Ele não prometeu redomas; não sugeriu que vivêssemos sem percalços.
Há muito parei de pedir livramentos divinos. Pedir que Deus não deixe que o pneu do meu carro fure ou que meu neto não fira a boca ou que eu jamais tenha enxaqueca, não faz parte, por assim dizer, do jeito como Deus decidiu (soberanamente) lidar com suas filhas e filhos. Ele não criou um mundo onde as pessoas estejam isentas de percalços e não atrelou bênçãos à impecabilidade (faz o sol e a chuva virem sobre todos, bons e maus). O casuísmo da Escritura não pode criar a expectativa de que é possível viver sem tribulação.
Procuro lembrar a mim mesmo que pedir favores especiais de Deus representaria uma indignidade existencial. Por que eu deveria acreditar que, servindo-O, terei maiores benefícios neste mundo? Deus não odeia as balanças enganosas? Por que então abraçar a ilusão de que Deus “faz passar no vestibular”, “deixa os jogadores de futebol crentes marcarem mais gols”, “resolve causas na justiça” ou “traz a pessoa amada"?
Não seria muito mais nobre se os crentes abrissem mão das possíveis regalias de um relacionamento com Deus? Não seria este, precisamente, o mandato cristão: irmanar-se ao drama de milhões que sofrem e morrem sem salvamentos espetaculares? Cristianismo não aponta para o exemplo Jesus de Nazaré, que morreu numa cruz?
Minhas preces, muitas vezes, são sem palavras. Em absoluto silêncio, contemplo o misterium tremendum que fica para muito além dos contornos da razão. Procuro absorver os vazios infinitos; intuir as verdades inaprendíveis; familiarizar-me com as escuridões cósmicas; envolver-me de nostalgias doloridas; conviver com os paradoxos incontornáveis. Minhas preces se parecem com meditações quando regurgito textos sagrados, imagens e símbolos do fascínio eterno.
Meus solilóquios também servem de incenso. Converso com minha alma como uma disciplina espiritual. Falo sozinho. Já me flagrei perguntando: – Por que estás abatida, ó minha alma?
Não, não sou nenhum prior no sacramento da oração. Posso ensinar pouca coisa. Percebo, porém, que Deus não escuta quando se fala muito. Entendo também que todo aquele que conhece o amor do Pai pára de suplicar por bens materiais, como comida ou vestido. Compreendo que existe uma dimensão secreta da oração, um lugar onde só entra uma pessoa por vez e que jamais poderia ser revelado publicamente. Quando eu me tranco nele, converso com Deus sobre realidades que guardo debaixo de sete chaves.
Quem desejar o divino ofício de orar deve fazer a sua própria peregrinação. Eu só posso dizer que a trilha será íngreme, às vezes confusa, solitária, mas sempre recompensadora.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

A Janela Lateral


“A distância que vai entre a janela e os meus olhos determina o que vejo lá fora na rua. Se fico mais perto, a visão se alarga; se fico de longe, a visão se estreita. Se vou à esquerda, enxergo a praça; se vou à direita, enxergo a torre. Sou eu que determino o que aparece lá fora na rua para servir de panorama aos meus olhos.Mas nem por isso é falso ou errado aquilo que vejo e descrevo, pois não sou eu que crio as coisas que aparecem lá fora. Já existiam antes de mim. Não dependem de mim. É útil e até necessário que cada um defina bem clara e honestamente aquilo que vê pela sua janela. Isso redundará em benefício da análise que se faz da realidade da vida. O que me consola é que todos somos assim. Bem limitados e condicionados pelos próprios olhos, dependentes uns dos outros. É trocando as experiências, numa conversa franca e humilde, que nos ajudamos a enxergar melhor as coisas que vemos, e a romper as barreiras que nos separam sem razão. Pois ninguém é dono da verdade. Intérprete só”. Assim falou Carlos Mesters. Desde então a teologia ficou sub judice. Compreendi que a teologia não é um discurso a respeito de Deus, mas apenas trocas de impressões a respeito das múltiplas interpretações que os homens fazem de Deus. Foi então que compreendi porque o Cristianismo não depende da ortodoxia, mas da revelação. A ortodoxia é uma teologia elevada à categoria de verdade absoluta. A revelação é o encontro com uma pessoa. Uma pessoa que não cabe nem na teologia nem na ortodoxia.


sábado, 22 de março de 2008

Páscoa

Estamos nos aproximando da Páscoa. Essa data nos recorda muitos chocolates. Mas seu verdadeiro significado não está no coelhinho nem nos chocolates.
Quando chegamos perto desta data tão festiva para os judeus, somos levados a relembrar daquelas intervenções divinas feitas por Yahweh no êxodo do Egito para uma terra que manava leite e mel.
Para nós, igreja hodierna, a Páscoa tem um significado parecido com da comemoração dos hebreus – libertos do mundo (Egito) para serem livres para Deus.
E quando nos retratamos para esta data, a ressurreição de Cristo é o ápice de toda esta história. Uma manhã de domingo muda a história da humanidade.
Penso que se Cristo apenas morresse e não ressuscitasse, seus ensinamentos de nada valeriam. Seria apenas um mártir como Martin Luther King Jr., Mahatma Gandhi e outros que revolucionaram a história de suas nações. Mas como bem disse Paulo:
“E, se Cristo não ressuscitou logo é vã a nossa pregação, e também é vã a nossa fé”.
Mas quando olhamos para aquilo que se transformou a Páscoa em nossos dias, fico perplexo como a mídia faz um chamariz para a venda de produtos que nada tem haver com aquilo que significa minha libertação de um mundo tenebroso. Na verdade, bem que a mídia tentou reproduzir esses seus simbolismos para dentro do cristianismo, mas infelizmente para eles, não colou. Esses símbolos nada reproduzem os mistérios do novo nascimento. Dizem que o ovo fala da existência da vida, que logo está intimamente ligado ao nascimento. Pura balela.
Já os coelhinhos, representam animais com capacidade de gerar grandes ninhadas, sua imagem simboliza a capacidade da Igreja de produzir novos discípulos constantemente.
Bem, se fosse essa a intenção da mídia em fazer esses paralelos, poderia até que surtisse algum efeito para o cristianismo. Mas a mensagem central do Evangelho de Cristo está sendo apagada por uma mentalidade brasileira, que tudo que vem de fora é acrescido a nossa cultura. Recebemos uns enlatados do exterior que se reflete até em nossas mensagens, sermões e pregações.
Portanto, voltemos logo à mensagem central do Calvário. Lembremos daquela manhã de domingo quando o sepulcro de Jesus já estava vazio. Lembremos daquelas palavras dos varões com roupas reluzentes às mulheres no sepulcro: “Por que buscais o vivente entre os mortos? Não está aqui, mas ressuscitou.”

sexta-feira, 7 de março de 2008

Quando penso em desistir

Em minha curta caminhada cristã, já vi muitos casos acontecerem com os supostos “filhos de Deus”. Casos estes que se acontecessem no “mundo”, com os supostos “filhos das trevas”, seriam atitudes bem normais. Mas como o Reino de Deus é formado por homens falíveis e a graça inaudita do Senhor superabunda nossas falhas e limitações, ainda penso em não desistir.
Bem... desistir de quê? Desculpe a falta de explicação inicial, mas é que ando cansado das atrocidades cometidas pelos “bispos”, “apóstolos” e “semideuses”, em nome de Deus.
Quando olho para a mídia radiofônica e televisiva me angustio diante de tanto melodrama para arrecadações de mundos e fundos para o suposto “reino de deus”.
Quando vejo um pai de família retirar o leite da boca de seu filho para dar à igreja por que o apóstolo ou bispo disse que se não contribuírem serão amaldiçoados, vejo o reflexo da falta de estrutura bíblia desses líderes que gostam tanto de retroceder, que querem sempre trazer a estrutura judaizante para o seio da igreja.
Pregar sobre Malaquias 3.10 é o que mais sabem, ou melhor, não sabem, pois suas "eisegeses" são melancólicas. Bem dizia Deus através do profeta Oséias: O meu povo foi destruído, porque lhe faltou o conhecimento.
Quando olhamos para aquilo que se chama evangélico no país, fico enojado.
Jesus disse a uma certa igreja da Ásia que eles tinham fama de estarem vivos, mas estavam mortos. (Ap 3.1)
Diante dessa minha perplexidade, quero fazer alguns diagnósticos.
A Igreja brasileira do século XXI sofre de alguns fenômenos que classifico como: nominalismo, sincretismo, pandemonismo, simonia e por aí vai descendo a ladeira.
Porém, quando somos diagnosticados, recebemos a receita médica para a cura. Mas, sem querer ser nenhum curandeiro, pois já temos o Médico dos médicos, proponho algumas soluções: Resgatar a primazia do ser em detrimento do ter e do fazer; resgatar a capacidade de ouvir verdades, principalmente quando elas estiverem contra nós e resgatar o conceito bíblico de santidade.
Temos atividades de dia e de noite. Nunca se fez tanto em nossas igrejas modernas. Um ativismo exacerbado. Mas nunca fomos tão insípidos em toda a História da Igreja. Somos o maior país cristão do mundo (católicos e evangélicos) em população numérica, porém somos o país mais corrupto do mundo. Somos a maior população carcerária do planeta. O maior consumidor de psicotrópicos do mundo; 30 milhões de pessoas morrem de fome; 60% da população padece de depressão e a cada dia 5 pessoas se suicidam. Aumenta-se o número de cristãos, mas não aumenta o fruto do cristianismo. Cadê a influência da igreja?
Bem...quando penso que também sou igreja de Cristo me decepciono, pois digito essas palavras olhando para o monitor como se fosse um espelho lançando todas essas verdades em meu rosto. Mas quando penso em desistir reflito na Graça... a voz embarga e olho para uma congregação situada dentro de uma comunidade carente chamada Guerenguê, onde Deus tem me ensinado a conviver com outra realidade. Lá me sinto igreja, noiva e imaculada. Desempenho não só minhas obrigações ritualísticas, mas me sinto parte integrante daquele corpo e por isso penso em não desistir.
Aos Novos Convertidos da comunidade deixo o meu abraço carinhoso, pois quando penso em desistir, lembro que existem vidas que dependem da vocação que Deus me delegou. Vidas estas que me fazem crescer e ser mais humano em ver e conviver com realidades opostas das mega-empresas religiosas que vemos no cenário religioso brasileiro.
Não, não vou desistir, não abandonarei minha comunidade de fé e nem desistirei de minha vocação. Posso não saber ainda para onde vou, mas estou cada dia mais certo dos caminhos por onde não devo ir.

Com quem Deus vai ficar no final?

Inteiramente irrelevante para o resto do mundo, desenrola-se nos nossos dias um acirrado embate teológico que em nada fica devendo às elucubrações do escolasticismo medieval. O prêmio almejado por ambos os lados da discussão é o status de ortodoxia – a consagração de crença correta, oficial, credenciada, inquestionável e inquestionada. Em jogo está quem tem direito a usar a marca do verdadeiro cristianismo. Com quem Deus vai ficar no final?

CALVINISMO: Em defesa da soberania de Deus

Deste lado, pesando 400 anos e com treinadores peso-pesado como Martinho Lutero e Calvino, está o calvinismo, sistema teológico característico das igrejas de tradição reformada. Os títulos já dizem tudo sobre a sua origem histórica: o calvinismo ostenta ser extensão fiel da postura teológica geral da reforma protestante do século XVI – refletindo em especial o pensamento de João Calvino e de seus discípulos imediatos.

No que interessa para a nossa discussão é preciso dizer que o calvinismo enfatiza tanto a tremenda soberania de Deus (Deus faz o que quer) quanto a tremenda incompetência do homem (o homem é incapaz de fazer por si mesmo qualquer coisa de bom).

O calvinista crê encontrar na Bíblia que Deus é soberano, e entende com isso que o livre-arbítrio humano é coisa que não existe. O homem, atolado até o pescoço na fossa do pecado, não tem qualquer inclinação, capacidade ou independência moral para desejar a Deus, quanto menos o cacife para escolher tomar o lado divino a fim de encontrar a salvação. Os que são salvos são salvos por iniciativa inconcidional de Deus tomada na eternidade antes do tempo começar a se desenrolar – ou seja, não com base em qualquer mérito, disposição em mudar ou manifestação de fé do indivíduo favorecido.

A morte sacrificial de Cristo não beneficia toda a humanidade, mas apenas essa porcentagem de eleitos que Deus escolheu em sua misericórdia e sem precisar dar explicações a ninguém. Essa graça concedida em favor dos eleitos é “irresistível” – isto é, do mesmo modo que não fez nada para merecê-la, o predestinado não tem liberdade para rejeitá-la e vai acabar cedendo a ela na hora certa, e para sempre. Os outros, predestinados à destruição, não tem por um lado espaço de manobra para mudarem o seu próprio destino, por outro direito a reclamarem dele.

Não é sem fundamento bíblico que o calvinismo deita essas propostas aparentemente paralisantes e deterministas. O apóstolo Paulo, em particular, parece fornecer ampla credencial para cada um dos pontos defendidos pelos calvinistas. Para citar uns poucos exemplos:

Porque os que dantes conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos; e aos que predestinou, a estes também chamou; e aos que chamou, a estes também justificou; e aos que justificou, a estes também glorificou (Romanos 8:29-30).

...que nos salvou, e chamou com uma santa vocação, não segundo as nossas obras, mas segundo o seu próprio propósito e a graça que nos foi dada em Cristo Jesus antes dos tempos eternos (2 Timóteo 1:9).

Assim, pois, isto não depende do que quer, nem do que corre, mas de Deus que usa de misericórdia (Romanos 9:16).

O conceito de predestinação parece também ter feito parte integrante do discurso do próprio Jesus e de outras tradições apostólicas:

Se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém se salvaria; mas ele, por causa dos eleitos que escolheu, abreviou aqueles dias (Marcos 13:20).

Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e creram todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna (Atos 13:48).

Ancorado nessa qualidade de testemunhos o calvinismo sustenta que a soberania divina deve ser entendida em termos de um controle firme de Deus sobre as rédeas da história. A liberdade de escolha de que o homem crê desfrutar é ilusória, visto que o desenrolar do enredo, em especial no que diz respeito a baixas e resgates individuais, já foi definido por Deus antes das câmeras começarem a rodar.

As particularidades do sistema calvinista refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu. A reforma protestante levantou-se em grande parte como reação aos abusos teológicos, sociais e políticos da igreja católica do seu tempo. Os reformadores mostravam particular indignação para com a obsessão circular da igreja católica com as “boas obras”, obras alegadamente meritórias e/ou sacrificiais através dos quais o adorador podia garantir – e muitas vezes comprar – a sua salvação. Os reformadores criam, e com acerto, que o Deus da Bíblia não admite barganhas; ele exige performance mas não aceita subornos e não reconhece méritos, promovendo a reconciliação exclusivamente através de sua própria postura cavalheiresca, a que os autores do Novo Testamento dão o nome de graça.

O calvinismo é o resultado de se levar a idéia de predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a graça é irresistível. Se Deus predestinou, não foi para todos que Jesus morreu. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma ilusão e uma farsa. Se Deus predestinou, ele conhece o futuro por inteiro e a história está pronta – apenas não terminou de ser filmada.

TEÍSMO ABERTO: Em defesa da liberdade

Deste lado, pesando menos de 30 anos mas alegando ser a reencarnação de um espírito muito anterior ao nascimento do calvinismo, está o teísmo aberto, batizado com esse nome em 1980 pelo adventista Richard Rice. O teísmo aberto traz à tona idéias que já circulavam sob alguma forma no pensamento de Jacobus Arminius, de John Wesley e de diversos teólogos do século XIX, porém aplica-lhes um matiz muito peculiar e arma-se de novos argumentos.

O teísmo aberto fundamenta-se na premissa de que muitos dos dogmas do teísmo clássico (e portanto do calvinismo) não tem sua origem na Bíblia ou na tradição dos apóstolos, mas são fruto de uma assimilação sacrílega de conceitos importados da filosofia grega. É o pensamento grego clássico e não a Bíblia – sustentam eles, e com acerto – que descreve Deus como sendo imutável, impassível e fora do tempo.

Seus partidários enfatizam que “atributos” de Deus como onisciência e onipotência não aparecem na Bíblia com esse nome, sendo generalizações posteriores forjadas a partir de indicações muito cautelosas dos autores bíblicos; mesmo o conhecido título de “Todo-Poderoso” é resultado da tradução arbitrária de uma expressão hebraica cujo significado original se perdeu. O Deus descrito na Bíblia é por um lado tremendamente poderoso, sábio e constante, por outro prefere definir-se por qualidades de auto-esvaziamento como misericórdia, tolerância e amor.

Em contraste com o calvinismo, o teísmo aberto enfatiza o caráter relacional de Deus (Deus desce da sua soberania para inaugurar um relacionamento aberto com o homem) e a liberdade e a responsabilidade humanas (Deus concedeu verdadeiro livre-arbítirio ao homem).

O partidário do teísmo aberto crê encontrar na Bíblia que Deus concedeu autonomia mais do que ilusória ao homem, e entende com isso que Deus não pode ser soberano como o classificam os calvinistas. O homem não pode salvar-se por si mesmo da sua condição, mas Deus desce da sua grandeza para convidar o homem a estabelecer um relacionamento livre com ele. Embora seja no fim das contas salvo apenas pela conduta galante e inclusiva de Deus, cabe ao homem rejeitar ou aceitar o convite para o abraço de reconciliação.

A morte sacrificial de Cristo beneficia de forma potencial toda a humanidade, porque o futuro permanece em aberto e enquanto vive o homem pode aceitar o convite da graça – convite esse que é tremendamente atraente mas não irresistível, já que Deus achou por bem relacionar-se com agentes livres e não com (a imagem é recorrente na argumentação dos teístas abertos) marionetes.

Todos estão portanto “predestinados” à salvação, mas o homem é livre para recusar esse destino glorioso , dizendo não ao mais sedutor dos apelos e abraçar voluntariamente o inferno. Como resultado dessa terrível liberdade que concedeu ao homem, Deus não tem como conhecer todos os detalhes do futuro – daí a corrente definir-se por uma visão “aberta” de Deus.

O Deus do teísmo aberto está inserido na história e não num inconcebível lugar fora do tempo; é um Deus que sofre e se relaciona; que está aberto ao diálogo e a mudar de opinião. É um Deus que, basicamente, recusou-se a viciar os dados e resolveu correr o risco da rejeição, na esperança de poder experimentar o verdadeiro amor.

Também não é sem fundamento bíblico que o teísmo aberto define suas proposições. O Deus da Bíblia sente-se muito à vontade no fluxo da história; as Escrituras judaico-cristãs fornecem abundante testemunho de Deus cedendo a pedidos, experimentando surpresa e desapontamento e mudando de idéia a partir da perfomance humana – incidentes que parecem contradizer a visão determinista do calvinismo. Inúmeros textos bíblicos enfatizam a responsabilidade humana no processo de salvação e o caráter relacional e recíproco das alianças de Deus com o homem. Algumas passagens chegam a falar de gente rejeitando trágica e deliberadamente o desígnio de Deus para suas vidas.

Arrependo-me de haver posto a Saul como rei; porquanto deixou de me seguir, e não cumpriu as minhas palavras (1 Samuel 15:11).

O Senhor se arrependeu de haver constituído Saul rei sobre Israel (1 Samuel 15:35).

Viu Deus o que fizeram, como se converteram do seu mau caminho; e Deus se arrependeu do mal que tinha dito lhes faria, e não o fez (Jonas 3:10).

Os céus e a terra tomo, hoje, por testemunhas contra ti, que te propus a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência (Deuteronômio 30:19).

Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado (Marcos 16:16).

Deus deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4 ).

Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis (1 Timoteo 4:10).

Mas os fariseus e os intérpretes da Lei rejeitaram, quanto a si mesmos, o desígnio de Deus, não tendo sido batizados por ele (Lucas 7:30).

Ancorado nessa qualidade de testemunhos o teísmo aberto sustenta que a soberania divina deve ser entendida como uma supervisão geral do Deus poderoso sobre uma história que ainda não está pronta. No fluxo dessa narrativa Deus intervém, mas não manipula; age, mas não condena ninguém ao inferno. A liberdade do homem é terrivelmente real, refletindo a liberdade do próprio Deus; é o encontro dessas liberdades que qualifica o tipo de relacionamento que Deus propõe experimentar com o homem. Deus não escolhe se definir pelo seu tremendo poder, mas pelo esvaziamento de poder, conforme exuberantemente manifesto na encarnação e na carne de Jesus.

As particularidades do teísmo aberto refletem com exatidão as condições ideológicas do mundo em que nasceu: o nosso. Desde meados do século XX a posição político-ideológica prevalente no ocidente e em suas colônias é essencialmente libertária, isto é, glorifica a autodeterminação. A liberdade de decisão é o único valor inegociável da nossa cultura, e qualquer relação entre dois agentes é concebível, desde que seja consensual. Como resultado, nenhuma relação não-consensual nos parece legítima. Pela lógica libertária, dizer graça irrestível é o mesmo que dizer graça nenhuma. O determinismo calvinista incomoda os teístas abertos não apenas por negar a liberdade do homem, mas por limitar a liberdade de Deus. Entendem eles que o Deus da Bíblia é poderoso não por dirigir a história com punho de ferro, mas por garantir um resultado final positivo sem dobrar-se à solução fácil que seria controlar todas as variáveis.

O teísmo aberto é o resultado de se levar a idéia da predestinação às suas últimas conseqüências lógicas. Se Deus predestinou, a liberdade humana é uma farsa. Se Deus predestinou, Jesus morreu para beneficiar uma elite arbitrária de eleitos, o que é moralmente inaceitável e incompatível com o caráter amoroso e inclusivo de Deus revelado no tom geral da Escritura. A missão do sistema do teísmo aberto é libertar Deus das amarras da sua soberania e a devoção cristã das contradições impensáveis do determinismo.

CAÇADORES DE CONSEQÜÊNCIAS

O arcabouço dessa disputa precede em muito o cristianismo, visto que reflete a discussão, já presente entre os pensadores da Antiguidade, sobre a atordoante possibilidade do livre-arbítrio. Em vocabulário ou mitologia contemporâneos, costuma-se especular até que ponto o comportamento do ser humano é determinado pela genética (como defende a sociobiologia) ou pela influência do meio (como sustentam muitas correntes da psicologia). Se (digamos) metade do nosso comportamento é determinado pela herança genética e a outra metade pela interação com o meio, restará espaço para o livre-arbítrio? A ciência, domínio para a qual transferiram-se desde o Iluminismo discussões metafísicas dessa natureza, não apresenta resposta unânime. Richard Dawkins e outros expoentes menos preconceituosos da ciência cognitiva tomam hoje por absolutamente certo que o livre-arbítrio humano é uma ilusão. Por outro lado, no universo selvagem da incerteza quântica simplificações como o determinismo é que parecem inconcebíveis.

Para calvinistas contemporâneos e teístas abertos, que procuram propor e responder a questão em termos de um outro tempo, a importância do embate entre soberania de Deus e livre-arbítrio fica clara quando se consideram as terríveis conseqüências lógicas, morais e ideológicas, de se abraçar a doutrina oposta.

Os teístas abertos começaram a ganhar terreno e adeptos denunciando, basicamente, o que vêem ser as abomináveis conseqüências morais do calvinismo. Para aceitar o calvinismo da ortodoxia, argumentam eles, é preciso endossar uma série de noções teológicas incompatíveis com o caráter generoso e relacional de Deus. Por exemplo: [1] que Deus é o único responsável pelo mal, [2] que Deus está mentindo quando dá entender que o homem é responsável por suas ações, [3] que a oração de súplica é uma farsa perversa, visto que o futuro é imutável e Deus não pode ser persuadido a mudar de idéia, [4] que de nada adianta pregar a boa nova, visto que os eleitos acabarão encontrando a luz de uma forma ou de outra, [5] que não existem injustiças sociais ou morais, visto que cada baixa de todas as guerras e de todas as pobrezas estavam previstas no roteiro original do próprio Deus.

Os calvinistas rebatem com o que creem ser as inadmissíveis conseqüências teológicas do teísmo aberto. O Deus do teísmo aberto é, reclamam eles: [1] menos do que onisciente, porque não conhece o futuro, [2] menos do que onipotente, porque não será capaz de impor a sua vontade se estiver restringido pela liberdade humana, [3] menos do que absoluto e eterno, por estar sujeito ao avanço linear do tempo no próprio universo que criou e [4] menos do que onipresente, porque o futuro não é uma realidade presente para ele.

Como demonstram essas séries muito simplificadas de objeções de ambos os lados, a preocupação fundamental dos teístas abertos é defender a bondade de Deus; a dos calvinistas é defender seus atributos.

Significativamente, um embate quase nos mesmos termos desenrolou-se há quase cinco séculos entre dois influentes pensadores cristãos, Martinho Lutero e Erasmo de Rotterdam, que trocaram acalorada correspondência sobre o assunto. Erasmo era ardente defensor da bondade de Deus, Lutero da sua soberania. Da mesma forma que calvinistas contemporâneos e teístas abertos, e quase com os mesmos raciocínios, ambos enxergavam com clareza as falhas teológicas e morais da posição do outro. Em determinado momento, desconcertado com a argumentação inclemente do seu oponente e resumindo sua expectativa e sua postura, Erasmo implorou a Lutero numa carta: “Deixe Deus ser bom”. Sem ceder um passo, Lutero retrucou em seguida, resumindo as suas: “Deixe Deus ser Deus”.

FOGUEIRAS VIRTUAIS: O martelo dos blogueiros

Esse é o tipo de discussão teológica que até dez anos atrás estava confinada a corredores acadêmicos e periódicos de seminário, avançando devagar e um artigo atrás do outro, longe dos olhos do público geral. Graças aos canais fáceis da internet, a altercação adquiriu um novo ardor e acendeu uma nova inquisição.

A disputa entre a doutrina calvinista e o teísmo aberto desenrola-se hoje em dia em blogs, fóruns de discussão, mailing lists, comunidades do orkut e mensagens reencaminhadas de e-mail. Nenhum líder tupiniquim chegou, que eu saiba, a abraçar abertamente o teísmo aberto, mas a doutrina calvinista conta com defensores pugnazes como a tradutora Norma Braga e os austeros pastores do blog O Tempora, O Mores (que assinam com a intimidadora advertência Very Strong Opinions).

Acusados com freqüência de flertar com o teísmo aberto são os líderes evangélicos que ousaram lamentar as conseqüências morais do calvinismo e opinar que a realidade talvez não seja tão simples. Em particular os impenitentes Ricardo Gondim, da Igreja Assembléia de Deus Betesda, e Ed René Kivitz, da Igreja Batista da Água Branca, sofrem pesado patrulhamento ideológico dos reformados. Tudo que esses dois dizem que pode representar alguma ameaça à ortodoxia calvinista – e eles dizem muita coisa do gênero: por exemplo, aqui e aqui – é imediatamente desconstruído pelos seus oponentes nos fóros virtuais que mencionei (por exemplo, aqui).

Os reformados acusam Gondim e Kivitz, no âmbito ideológico, de relativismo, que consiste na desconfiança tipicamente pós-moderna a posições doutrinárias categóricas e absolutas; no âmbito moral, de dissimulação, denunciando a hesitação da dupla em assumir publicamente que abandonou a ortodoxia em favor de uma doutrina alternativa – confissão que tornaria mais fácil o trabalho de desclassificá-los como hereges. Acusam-nos de não entender a verdadeira doutrina calvinista, na qual soberania de Deus e responsabilidade humana não são incompatíveis. Acusam-nos de falta de objetividade, confusão essencial e raleza de argumentação. Pelo que conheço dos dois essas acusações podem muito bem ter fundamento. Gondim e Kivitz, cujas idéias estão condenadas à reformulação eterna, escolheram o impalpável caminho da precariedade, que é tão largo que são poucos os que entram por ele. Sua fé diz mais a respeito às suas dúvidas do que às suas certezas; isso cria um precedente que é essencialmente destrutivo à supremacia da ortodoxolatria e precisa ser por essa razão eliminado pelos que se preocupam com esse tipo de coisa.

O EVANGELHO DA COMPARAÇÃO

Como Gondim e Kivitz, prefiro a confortável posição de denunciar o calvinismo sem endossar a doutrina do teísmo aberto – doutrina que é no fim das contas tão limitante e extrema quanto a que pretende invalidar. Agir diferente seria glorificar uma ortodoxia em detrimento da outra; desmanchar um ídolo para colocar outro no lugar. Responder com contra-argumentações às objeções dos reformados seria concordar com eles na sua pressuposição fundamental (e mais sem fundamento), de que a razão e o raciocínio dedutivo podem produzir conclusões acuradas a respeito do mecanismo de Deus.

Isso porque a falta essencial que os calvinistas encontram no teísmo aberto e na teologia racional é de lógica. Seus defensores prestam culto à lógica formal, seguindo implacavelmente de suas próprias premissas a conclusões estanques:

PREMISSA: DEUS É ETERNO POR NATUREZA

• Como Deus é eterno por natureza, Deus não é restrito nem está contido no tempo.
• Como Deus criou o universo, e como Deus não é sujeito ao tempo, e como o universo opera dentro do tempo, Deus também criou o tempo quando criou o universo.
• Como Deus criou o tempo, ele existe fora do tempo e não está sujeito às suas propriedades e limitações.

PREMISSA: DEUS É ONIPRESENTE

• A onipresença de Deus não é restrita pelo tempo porque Deus, por natureza, não é restrito pelo tempo.
• Como Deus não é restrito pelo tempo, e como ele é o onipresente, o futuro é uma realidade presente para Deus.
• Como está em todos os lugares e em todos os instantes do tempo, Deus conhece todas as coisas, até mesmo as futuras escolhas de suas criaturas.

E assim por diante.

Porém o que alguém está realmente dizendo quando recorre a abstrações como “Deus é eterno por natureza”? O que é ser eterno por natureza? O raciocínio pode ser considerado um guia claro para a natureza da eternidade? O que é ser onipresente? Pode Deus estar presente em lugares que não existem? O futuro é um lugar? O futuro existe? Faz sentido falar do futuro como algo além de possibilidade? Faz sentido esperar que a perspectiva do tempo seja capaz de produzir vislumbres acurados sobre a natureza da eternidade? Faz sentido esperar que Deus faça sentido racional? Podemos tirar conclusões seguras a respeito de Deus a partir do raciocínio dedutivo?

Muda às exigências das teologias, a Bíblia não se rende em momento algum às pretensões da lógica formal, fornecendo testemunho distinto tanto em favor da inquestionável autonomia de Deus quanto da liberdade e da responsabilidade do homem. Do ponto de vista dos autores bíblicos uma coisa não nega necessariamente nem impõe limites à outra; ninguém precisa sair em defesa da bondade ou da soberania de Deus apenas para passar a ferro contradições aparentes, resultado da limitação do nosso ponto de vista. O mesmo Jesus que sugere que o Pai pode ser persuadido pela insistência pura e simples garante que Deus mantém o inventário até mesmo dos cabelos que nos caem da cabeça. Jesus, que sustentava que o domínio de Deus só pode ser vislumbrado a partir de comparações – “a que compararei o reino de Deus?” – cria que não é preciso escolher entre um Deus que muda de idéia e um Deus que está no controle de tudo; entre um Deus que resgata soberanamente e sem motivo e um Deus que concede autonomia e exige responsabilidade. Esses, provoca Jesus, são o mesmo Deus, e só permanecem incompatíveis enquanto nos dobramos ao apelo, sempre enganador em questões espirituais, da razão.

Certo é que o Deus da Bíblia, que recusa-se à rebaixar-se à lógica, não hesita em definir-se consistentemente por uma história de relacionamento com a sua criação. O homem teomórfico de Gênesis prefigura o Deus antropomórfico dos evangelhos. Entre uma capa e outra da Bíblia repousa o abraço terno desses dois. A mensagem consistente da voz ou das vozes bíblicas parece ser que a verdade de Deus só pode ser experimentada adequadamente pelo relacionamento – jamais pela razão, pela doutrina ou pela lei, que são símbolos ou intermediários.

A verdade cristã (“eu sou o caminho, a verdade e a vida”) é, desconcertantemente, uma pessoa com a qual podemos nos relacionar, não uma série de enunciados lógicos que possamos apreender através da razão. Como qualquer pessoa em qualquer relacionamento, a verdade cristã pode ser inquestionavelmente abraçada, jamais explicada ou entendida.

É nisso que reside a falha fundamental de sistemas estanques como o calvinismo e o teísmo aberto: não em alguma lógica interna deficiente, como quer tentar nos convencer o debate entre ambas as partes, mas na deficiência inerente da própria lógica para explicar as bases e o mecanismo de qualquer relacionamento, quanto mais a mais atordoante das paixões.

O efeito dessa nossa obsessão em precisar o conteúdo intelectual da verdadeira fé está em que enquanto fazemos isso conseguimos manter Jesus irrelevante para o restante e vasta maioria do mundo. A impressão que passamos é que a coisa mais útil e importante que o cristão pode fazer é definir intelectualmente e sem arestas a forma como Deus funciona e em seguida defender a todo custo o seu ponto de vista. O conteúdo revolucionário da mensagem de Jesus não chega a ser sequer levado em consideração, já que usamos a teologia como cortina de fumaça para não termos que encará-lo de frente. Enquanto tentamos determinar quem Deus vai endossar no final, não somos obrigados a enfrentar o impensável desafio que seria endossarmos os desafios dele.


Por Paulo Bravo

quarta-feira, 5 de março de 2008

Milagres

Encontrei um trecho interessante no texto de Philip Yancey, no livro "O Jesus que eu nunca conheci", a respeito de milagre:

"Alguns vêem os milagres como uma suspensão implausível das leis do universo físico. Como sinais, entretanto, servem exatamente para uma função oposta. A morte, a deterioração, a entropia e a destruição são a verdadeira suspensão das leis de Deus; os milagres são vislumbres precoces da restauração. Nas palavras de Jürgen Moltmann: 'As curas de Jesus não são milagres sobrenaturais em um mundo natural. São as únicas coisas verdadeiramente "naturais" em um mundo que não é natural, e sim demoníaco e ferido'".
O milagre, nesta definição, não é a manifestação de algo sobrenatural, mas sim a retomada do que é natural. Nesse sentido, nossa atenção deve se deslocar da expressão “sobrenatural”, que desejamos que se manifeste de vez em quando, para a expressão “anti-natural”, com a qual convivemos diariamente. Isto é, devemos superar a idéia de que vivemos em um mundo natural, que aos poucos vai se deteriorando, e que de vez em quando Deus interfere sobrenaturalmente para impedir ou retardar sua deteriorização. Na verdade, vivemos em um mundo deteriorado, no qual Deus age constantemente visando sua restauração
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quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

O evangelho dos evangélicos

“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus.” [Jesus Cristo]

Estou convencido de que um é o evangelho dos evangélicos, outro é o Evangelho do Reino de Deus. Registro que uso o termo “evangélico” para me referir à face hegemônica da chamada igreja evangélica, como se apresenta na mídia radiofônica e televisiva. O evangelho dos evangélicos é estratificado. Tem a base e tem a cúpula. Precisamos falar com muito cuidado da base, o povo simples, fiel e crédulo. Mas precisamos igualmente discernir e denunciar a cúpula. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé; a cúpula, muitas vezes é oportunista, mal intencionada, e age de má fé. A base transita livremente entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões afro. A base vai à missa no domingo, faz cirurgia em centro espírita, leva a filha em benzedeira, e pede oração para a tia que é evangélica. Assim é o povo crédulo e religioso. Uma das palavras chave desta estratificação é “clericalismo”: os do palco manipulando os da platéia, os auto-instituídos guias espirituais tirando vantagem do povo simples, interesseiro, ignorante e crédulo. A cúpula é pragmática, e aproveita esse imaginário religioso como fator de crescimento da pessoa jurídica, e enriquecimento da pessoa física. Outra palavra chave é “sincretismo”. A medir por sua cúpula, a igreja evangélica virou uma mistura de macumba, protestantismo e catolicismo. Tem igreja que se diz evangélica promovendo “marcha do sal”: você atravessa um tapete de sal grosso, sob a bênção dos pastores, e se livra de mal olhado, dívida, e tudo que é tipo de doença. Já vi igreja que se diz evangélica distribuir cajado com água do Jordão (i.é, um canudo de bic com água de pia), para quem desejasse ungir o seu negócio, isto é, o seu business. Lembro de assistir a um programa de TV onde o apresentador prometia que Deus liberaria a unção da casa própria para quem se tornasse um mantenedor financeiro de sua igreja. O povo religioso é supersticioso e cheio de crendices. Assim como o Brasil. Somos filhos de portugueses, índios, africanos, e muitos imigrantes de todo canto do planeta. Falar em espíritos na cultura brasileira é normal. Crescemos cheios de crendices: não se pode passar por baixo de escada; gato preto dá azar; caiu a colher, vem visita mulher, caiu garfo, vem visita homem; e outras tantas idéias sem fundamento. Somos assim, o povo religioso é assim. Tem professor de universidade federal dando aula com cristal na mão para se energizar enquanto fala de filosofia. E a cúpula evangélica aproveita a onda e pratica um estelionato religioso: oferece uma proposta ritualística que aprisiona, promove a culpa e, principalmente, ilude, porque promete o que não entrega. Aliás, os jornais começam a noticiar que os fiéis estão reivindicando indenizações e processando igrejas por propaganda enganosa. O evangelho dos evangélicos é estratificado. A base é movida pela ingenuidade e singeleza da fé, e a cúpula é oportunista. A base transita entre o catolicismo, o protestantismo e as religiões-afro, e a cúpula é pragmática. A base é cheia de crendices e a cúpula pratica o estelionato religioso.O evangelho dos evangélicos é mercantilista, de lógica neoliberal. Nasce a partir dos pressupostos capitalistas, como, por exemplo, a supremacia do lucro, a tirania das relações custo-benefício, a ênfase no enriquecimento pessoal, a meritocracia – quem não tem competência não se estabelece. Palavra chave: prosperidade. Desenvolve-se no terreno do egocentrismo, disfarçado no respeito às liberdades individuais. Palavra chave: egoísmo. Promove a desconsideração de toda e qualquer autoridade reguladora dos investimentos privados, onde tudo o que interessa é o lucro e a prosperidade do empreendedor ou investidor. Palavra chave: individualismo. Expande-se a partir da mentalidade de mercado. Tanto dos líderes quanto dos fiéis. Os líderes entram com as técnicas de vendas, as franquias, as pirâmides, o planejamento de faturamento, comissões, marketing, tudo em favor da construção de impérios religiosos. Enquanto os fiéis entram com a busca de produtos e serviços religiosos, estando dispostos inclusive a pagar financeiramente pela sua satisfação. Em síntese, a religião na versão evangélica hegemônica é um negócio.
O sujeito abre sua micro-empresa religiosa, navega no sincretismo popular, promete mundos e fundos, cria mecanismos de vinculação e amarração simbólicas, utiliza leis da sociologia e da psicologia, e encontra um povo desesperado, que está disposto a pagar caro pelo alívio do seu sofrimento ou pela recompensa da sua ganância. Em terceiro lugar, o evangelho dos evangélicos é mágico. Promove a infantilização em detrimento da maturidade, a dependência em detrimento da emancipação, e a acomodação em detrimento do trabalho. Pra ser evangélico você não precisa amadurecer, não precisa assumir responsabilidades, não precisa agir. Não precisa agregar virtudes ao seu caráter ou ao processo de sua vida. Primeiro porque Deus resolve. Segundo porque se Deus não resolver, o bispo ou o apóstolo resolvem. Observe a expressão: “Estou liberando a unção”. Pensando como isso pode funcionar, imaginei que seria algo como o apóstolo ou bispo dizendo ao Espírito Santo: “Não faça nada por enquanto, eles não contribuíram ainda, e eu não vou liberar a unção”. Existe, por exemplo, a unção da superação da crise doméstica. Como isso pode acontecer? A pessoa passa trinta anos arrebentando com o seu casamento, e basta se colocar sob as mãos ungidas do apóstolo, que libera a unção, e o casamento se resolve. Quem não quer isso? Mágica pura. O sujeito é mau-caráter, incompetente para gerenciar o seu negócio, e não gosta de trabalhar. Mas basta ir ao culto, dar uma boa oferta financeira, e levar para casa um vidrinho de óleo de cozinha para ungir a empresa e resolver todos os problemas financeiros. Essa postura de não assumir responsabilidades, de não agir com caráter, e esperar que Deus resolva, ou que o apóstolo ou bispo liberem a unção tem mais a ver com pensamento mágico do que com fé.Em quarto lugar, o evangelho dos evangélicos tem espírito fundamentalista. Peço licença para citar Frei Beto: “O fundamentalismo interpreta e aplica literalmente os textos religiosos, não sabe que a linguagem simbólica da Bíblia, rica em metáforas, recorre a lendas e mitos para traduzir o ensinamento religioso.” O espírito fundamentalista é literalista, e o mais grave é que o espírito fundamentalista se julga o portador da verdade, não admite críticas, considerações ou contribuições de outras correntes religiosas ou científicas. Quem tem o espírito fundamentalista não dialoga, pois considera infiéis, heréticos, ou, na melhor das hipóteses, equivocados sinceros, todos os que não concordam com seus postulados, que não são do mesmo time, e não têm a mesma etiqueta. Quem tem o espírito fundamentalista se considera paradigma universal. Dialoga por gentileza, não por interesse em aprender. Ouve para munir-se de mais argumentos contra o interlocutor. Finge-se de tolerante para reforçar sua convicção de que o outro merece ser queimado nas fogueiras da inquisição. Está convencido de que só sua verdade há de prevalecer. Mais uma vez Frei Beto: “o fundamentalista desconhece que o amor consiste em não fazer da diferença, divergência”. Por causa do espírito fundamentalista, o evangelho dos evangélicos é sectário, intolerante, altamente desconectado da realidade. O evangelho dos que têm o espírito do fundamentalismo é dogmático, hermético, fechado a influências, e, portanto, é burro e incoerente.Em quinto lugar, o evangelho dos evangélicos é um simulacro. Simulacro é a fotografia mais bonita que o sanduíche. Não me iludo, o evangelho dos evangélicos é mais bonito na televisão do que na vida. As promessas dos líderes espirituais são mais garantidas pela sua prepotência do que pela sua fé. Temos muitos profetas na igreja evangélica, mas acredito que tenhamos muito mais falsos-profetas. Os testemunhos dos abençoados são mais espetaculares do que a realidade dos cristãos comuns. De vez em quando (isso faz parte da dimensão masoquista da minha personalidade) fico assistindo estes programas, e penso que é jogada de marketing, testemunho falso. Mas o fato é que podem ser testemunhos por amostragem. Isto é, entre os muitos que faliram, há sempre dois ou três que deram certo. O testemunho é vendido como regra, mas na verdade é apenas exceção. A aparência de integridade dos líderes espirituais é mais convincente na TV e no rádio do que na realidade de suas negociatas. A igreja evangélica esta envolvida nos boatos com tráficos de armas, lavagem de dinheiro, acordos políticos, vendas de igrejas e rebanhos, imoralidade sexual, falsificação de testemunho, inadimplência, calotes, corrupção, venda de votos. A integridade do palco é mais atraente do que a integridade na vida. A fé expressa no palco, e nas celebrações coletivas é mais triunfante, do que a fé vivida no dia a dia. Os ideais éticos, e os princípios de vida são mais vivos nos nossos guias de estudos bíblicos e sermões do que nas experiências cotidianas dos nossos fiéis. Os gabinetes pastorais que o digam: no ambiente reservado do aconselhamento espiritual a verdade mostra sua cara. Estratificado, mágico, mercantilista, fundamentalista, e simulacro. Eis o evangelho dos “evangélicos”.
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Por Ed René Kivitz

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Paradoxos

Paradoxo é uma “aparente falta de nexo ou de lógica, uma contradição”, conforme nos ensina o dicionário. Por exemplo, a expressão de Jesus, “quem perder a sua vida, acha-la-á”, é um paradoxo. Como pode algo acontecer ao mesmo tempo que seu contrário ? A gente perde, ou acha a vida, mas perder e achar ao mesmo tempo é uma contradição, isto é, um paradoxo. Algumas verdades, entretanto, somente podem ser expressas em termos de paradoxos. A vida não é tão simples que possa seguir adiante sem contradições. Mas por outro lado, algumas contradições da vida são na verdade experiências aparentemente opostas, mas que se completam, que fazem sentido quando são somadas, ou que apontam em direções opostas, mas que não se excluem, isto é, podem conviver sem que uma anule a outra.A relação entre a soberania de Deus e o livre arbítrio do ser humano é um dos grandes paradoxos da vida. Aparentemente, são duas verdades opostas. É verdade que Deus está no controle soberano de todas as coisas. Mas também é verdade que o ser humano é livre para tomar decisões. Por exemplo, na história de José do Egito, isso fica bem claro. José foi vendido por seus irmãos para um mercador que comercializava escravos no Egito. Mas ao final da vida, José afirma que foi Deus quem o levou para o Egito. A final de contas, foi Deus ou foram os irmãos de José os responsáveis pela sua ida para o Egito? Caso a responsabilidade seja toda de Deus, então a traição dos irmãos não pode ser levada em conta e eles não podem ser julgados moralmente, pois estavam fazendo apenas o que Deus queria que fizessem, isto é, sem saber, estavam sendo manipulados por Deus. Mas se a responsabilidade é toda dos irmãos de José, então como pode José dizer que foi Deus quem o levou para lá ? Neste caso José estava enganado, e, pior do que isso, sua vida estava nas mãos de seus irmãos e não de Deus, de modo que Deus não era soberano sobre a vida de José.A maneira como podemos resolver isso é através do conceito de paradoxo. Precisamos acreditar que a soberania de Deus não anula a responsabilidade humana. Devemos acreditar que a vida está em nossas mãos, pois somos responsáveis pelas nossas decisões, e seremos cobrados e julgados por Deus em relação ao que fizemos e ou deixamos de fazer.Mas também podemos descansar no fato de que Deus está no controle de todas as coisas, cuidando de nós como Pai amoroso, e que nenhum cabelo da nossa cabeça cairá sem sua permissão. Devemos acreditar que Deus está agindo na história de acordo com seu propósito eterno. Isto é, devemos dizer como Jó: “bem sei que tudo podes, e nenhum dos seus propósitos pode ser frustrado”.
Dwigth Lyman Moody resumiu este paradoxo da vida com o seguinte conselho: “Ore como se tudo dependesse de Deus. Trabalhe como se tudo dependesse de você”.

A Verdade e suas metáforas

Em certo país dava-se o nome de metáfora a qualquer recipiente próprio para conter algum líquido. Havia nesse país uma fonte de água cristalina, porém tão amarga que dizia-se bastar um único gole para matar de desgosto um homem adulto; cria-se no entanto que diluída ou em pequenas doses essa água tinha propriedades mágicas ou medicinais, e deu-se a ela o nome de verdade. Levas de peregrinos acorriam incessantemente à fonte, e partiam para seus lugares de origem levando a verdade em seus vasos metafóricos. Porém uma rigorosa seita, que cria que a verdade deve ser experenciada sem o auxílio de metáforas, atacava as caravanas de peregrinos. Querendo ensiná-los a obter a verdade em estado puro, os sectários destruíam a pauladas as metáforas que a continham. Quebrados os recipientes, a verdade se derramava e desaparecia no solo, ficando sem ela peregrinos e sectários.Certa vez um rapaz voltava da fonte levando a verdade em sua metáfora quando viu de longe a aproximação dos sectários. Não querendo ver derramada a verdade que trazia consigo, o rapaz não hesitou e bebeu em goles resolutos toda a água da vasilha.– Onde está a verdade que você trazia nessa metáfora? – perguntaram os perseguidores.– Eu bebi – desafiou o rapaz. – Agora a verdade está dentro de mim. E os sectários mataram-no a pauladas. Em compensação, começou a correr a notícia de que a verdade, embora amarga, não era mortal, e que o recipiente próprio para conter a verdade era um ser humano. Com o passar do tempo os próprios homens passaram a ser chamados de metáforas, e conta-se que nunca estiveram mais perto da verdade.
Autor Desconhecido

Sejam bem-vindos

Graça e Paz!

Estou começando essa nova empreitada na criação de um blog.
Sei das responsabilidades, mas o anseio do meu coração faz com que eu compre essa idéia com muito entusiasmo.
Neste espaço, levantarei assuntos sobre diversos temas que fazem parte de nosso quotidiano; assuntos teológicos, históricos, artigos de jornal, humor etc.
Sejam muito bem-vindos ao meu blog. Sempre que puder deixe seu comentário.
Um abraço.

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